Cinema Turim - Mais um cinema reincarnado...


O meu passeio pela Freguesia de Benfica não terminou no edificio quase centenário da Junta de Freguesia. Agora vou dar um pulinho à muito próxima Estrada de Benfica, mais concretamente ao nº 723, onde se encontra um pequeno e antigo centro comercial que passa despercebido a muita gente, mas que já teve uma sala de cinema a funcionar. Estou a falar do Cinema Turim.





O Centro Comercial Turim abriu em 1984 e com ele a sala de cinema que encerrou em 2007.
A sala localizava-se na c/v  do centro comercial e era pequena com cadeirões de veludo vermelho. E, em época normal, havia sempre dois filmes em exibição, a horários diferentes, em várias sessões.


O Cinema Turim brilhou quando ainda não existiam  o Centro Comercial Fonte Nova ou Colombo. Haviam sessões da meia-noite, matinées e nas férias de Natal haviam filas para os bilhetes das sessões infantis, como tambem desfiles de Carnaval. O movimento era imenso. A abertura de novos centros comerciais com salas de cinema mais apetrechadas e espaçosas, transformou o Cinema Turim numa sala de retaguarda, onde apenas eram projectados os filmes que já tinham saído de cartaz nos outros cinemas.
Depois do seu encerramento, esteve quase para ser alugada à Igreja Maná para sessões de culto. Chegou a haver uma inscrição a anunciar a sua instalação, o que nunca aconteceu. Durante uma semana, comentou-se na rua e nas lojas que seria "uma blasfémia" mesmo ali em frente à igreja de Benfica.
A persistência da administração em resistir aos gigantes do consumo do novo milénio faz com que este pequeno centro comercial perto da igreja de Benfica continue a sobreviver.
Neste momento, o Cinema Turim reincarnou no Teatro Turim, tudo graças à persistência da actriz Anabela Moreira (filha do dono do cinema) que, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, pretende fazer deste espaço um pólo cultural, que dinamize a cidade e, sobretudo, a zona de Benfica, que está um pouco à margem da vida cultural de Lisboa.


Cine Clube de Benfica: o berço do desporto

Hoje vou fazer um passeio até à freguesia de Benfica, onde se localiza-se na Avª Gomes Pereira, nº 17 o edificio da Junta de Freguesia. Ok...o que é isto tem a ver com cinema? Muito! É que antes de albergar a Junta, este edificio tinha sido uma sala de cinema chamada Cine Clube de Benfica.




Este cine clube foi inaugurado em 1916, tendo sido a primeira sala de cinema existente nesta freguesia lisboeta, muito antes do C.C. Colombo, Fonte Nova ou o Turim.
Fazia parte dum complexo com várias instalações desportivas e lúdicas pertencentes ao Sport Lisboa e Benfica, que nesse ano adquiriu o edifício neo-romântico na Av. Gomes Pereira e terrenos envolventes para aí instalar a sua sede e recintos desportivos.
Ate 1926, o campo de futebol utilizado pelo clube existiu nas traseiras deste edificio, até aquele se mudar para o Campo das Amoreiras.
O ringue de patinagem existente actualmente é o mais antigo do país e foi o berço do hóquei em patins português, estando a funcionar desde a sua inauguração em 1914.






Como já disse, a Junta de Freguesia de Benfica encontra-se instalada neste edificio, tendo em 1992 a sala do Cine Clube de Benfica sido renovada, passando a designar-se Auditório Carlos Paredes, podendo acolher 115 espectadores. As colunas da boca de cena ainda são as originais que remontam a 1916.





O ringue também foi remodelado, sendo-lhe acrescentado uma cobertura em forma de pala sobre as bancadas. Aproveitando os terrenos da Quinta de Marrocos onde anteriormente se localizava o velho campo de futebol, a Junta viria também a construir uma piscina coberta.
O Auditório Carlos Paredes, hoje considerado um importante símbolo do Património Cultural de Benfica, é um pólo aglutinador de dinamização, promoção e difusão de actividades culturais na Freguesia de Benfica.
Actualmente, esta infra-estrutura encontra-se sob a gestão da J.F. Benfica, através do Pelouro da Cultura.





Central: quando o cinema reincarna...



Raul Lopes Freire (homem de negócios apaixonado pelo cinema e dono do Salão Chiado) inaugurou um novo espaço localizado no Palácio Foz. Salão Central era o seu nome e apareceu graças ao sucesso das exibições cinematográficas que se expandiam pela cidade lisboeta, como também à perseverança do seu dono. No início de 1908 foi constituída a “Sociedade Animatográfica, Lda.”, composta pelos associados Carlos Gotschalk, Raul Lopes Freire e seu irmão Augusto Freire, Carlos Ribeiro Nogueira Ferrão, Alberto Coutinho Freire e Jaime Guerra da Veiga Pinto, do qual Raul Lopes Freire seria gerente. O local escolhido era ocupado anteriormente pelo estabelecimento de Gotschalk dedicado a maquinismos e utensílios eléctricos e situava-se no extremo norte do Palácio Foz que, anteriormente, fora a capela privativa do palácio. Foram feitas obras em tempo recorde para que o salão fosse inaugurado em 1908.




A par do Chiado Terrasse e do Salão Trindade, esta sala era uma das mais prestigiadas, luxuosas e cómodas de Lisboa, tendo sido construída na capela privativa do palácio. A sua decoração era original, criando um ambiente de fundo do mar no sentido de conferir um certo ar de frescura, efeito esse obtido através da utilização de cartão-pasta modelado. A disposição do ecrã também era outra novidade, porque se situava do lado oposto onde se encontra actualmente e se manteria assim até à grande transformação da sala em 1919. Poderia acomodar 425 espectadores.
Em pouco tempo, Raul Lopes Freire consegue obter as partes dos outros sócios, passando a ser ele (juntamente com a sua mãe e irmãos) os únicos donos deste salão. E sob a gerência eficaz de Freire, a exploração do mesmo revela-se um sucesso.



Querendo melhorar e acreditar mais a sua sala no sentido de obter uma programação segura e variada, Freire conseguiu em 1917 a representação exclusiva para Portugal de uma das mais acreditadas firmas importadoras e distribuidoras espanholas, a “Agência General Cinematográfica” de Barcelona. Essa cartada importante fez com que a exploração deste salão se tornasse mais rentável. No mesmo ano, esta sala passou a ter um sexteto dirigido por Carlos Teixeira que acompanhava musicalmente todos os filmes exibidos.


Raul Lopes Freire era um homem de negócios, extremamente dedicado à exploração cinematográfica. Em 1919, encerrou este espaço para obras. Sob a sua concepção técnica e sob projecto do Arqt.º João Baptista Mendes, a reconstrução deste salão foi profunda e ficou a cargo do construtor Manuel Eanes Trigo.
A sala era constituída por uma ampla plateia (por aquilo que normalmente se tem chamado de balcão de 1ª ordem) ao qual foi dada o nome de tribuna, que dava lugar a cinco camarotes e, num nível superior, ao balcão de 2ª ordem. A sua inauguração também no mesmo ano foi um verdadeiro acontecimento no meio cinematográfico lisboeta. Foram saudados a largura do espaço o que permitia ventilação; a abertura de novas portas de saída; o desaparecimento das incómodas colunas que estorvavam e claro, os pormenores luxuosos evidentes no rico pano de veludo que encortinava o ecrã; no mobiliário ostentoso; nas esculturas ornamentais, na decoração em branco e oiro. Também é de salientar a existência de um novo sexteto musical dirigido por Luís Barbosa, uma importante figura do panorama musical português da época.




Raul Lopes Freire no intuito de melhorar, modernizar e tornar mais atraente o seu salão ao público, resolveu transformá-lo mais uma vez em 1929. O aspecto que mais se evidenciou desta vez foi a utilização de madeira cara, que contribuiu para modificar completamente o interior do salão, com a oferta de novas poltronas na plateia como também na antiga tribuna, cujas primeiras filas desapareceram para dar lugar a uma ordem de camarotes. Por outro lado, o antigo 2º balcão foi substituído por camarotes. Contudo, todas estas transformações atrás referidas não impediram que o público começasse a afastar-se devido à abertura de novas salas em diferentes zonas da cidade, acabando por forçar o seu encerramento.




Em 1958 foi recuperado e serviu de instalação para a Cinemateca Portuguesa até 1980, quando a mesma se mudou para as instalações da Rua Barata Salgueiro. A partir daí neste espaço passou a funcionar a Cinemateca Júnior, mantendo esta função actualmente. Já não tem a famosa orquestra, mas possui um piano que serve de acompanhamento na exibição dos filmes mudos, como também acontece noutras salas da Cinemateca. O espaço do actual Salão Foz possui uma exposição interactiva de pré-cinema chamada Das Lanternas Mágicas ao Cinematógrafo dos Lumiére, uma viagem pelos primórdios do cinema desde as sombras de luz até aos cinematógrafos. Todos os sábados existem sessões de cinema.


É também importante evocar uma história curiosa…depois do 25 de Abril de 1974, esta sala começou a exibir filmes do cinema de Leste proibidos pela ditadura, graças a Vasco Granja (o mesmo senhor que marcou o panorama televisivo português com os seus programas de animação, também do Leste, que eram transmitidos na RTP2 há muitos anos atrás). Em suma, este cinema ganhou vida através de uma outra reencarnação  mas sem nunca deixar de ser o que é...um espaço dedicado à 7ª arte, à magia do cinema.
 
 
 


Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.com/2010/11/antigos-cinemas-de-lisboa-4.html
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/01/central-cinema.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2010/02/central-1908-actualidade.html

Capitólio: um "gigante" salvo?


Hoje vou relembrar um cine-teatro que durante muito tempo foi um ex-libris de Lisboa, principalmente na zona do Parque Mayer...já estão a ver qual é, certo? Falo-vos do portentoso Cine-Teatro Capitólio.


O Cine-Teatro Capitólio é um edifício classificado de importância arquitectónica internacional. Localiza-se no Parque Mayer, um antigo recinto de diversões de Lisboa inaugurado em 1922.
Luis Cristino da Silva, um dos arquitectos mais proeminentes do Séc. XX português e considerado por especialistas como o introdutor do modernismo em Portugal, foi o autor do projecto do Capitólio e o Engº José Belard da Fonseca foi o autor da inovadora estrutura de betão armado. Quando foi inaugurado oficialmente a 10 de Julho de 1931 e aberto ao público, a 11 de Julho, tornou-se num manifesto sem precedentes em Portugal, representando o espírito do mundo moderno.
Este cine-teatro foi inaugurado com uma série de inovações que o distinguiram das demais construções, como a introdução de uma escada rolante e de uma esplanada no terraço a 11 metros de altura. Foi equipado com um dos melhores sistemas de som do mundo da marca alemã Bauer.


Tinha-se iniciado uma nova era na arquitectura, sendo representativos desse período os edifícios do Diário de Notícias e do antigo Hotel Vitória, ambos na Av. da Liberdade; o edifício da Standard Eléctrica na Av. da Índia; a Estação de Sul e Sueste; o edifício do cinema Cinearte em Santos, etc. De todos, o Capitólio é dos mais representativos do modernismo.
A sala era desmesuradamente grande, podendo albergar 1391 espectadores, número que esmagava qualquer lotação de outro cinema existente naquela altura.






No palco na esplanada do terraço podia-se assistir a espectáculos de variedades, com actores estrangeiros, estreando todas as semanas, novos espectáculos, e tambem ouvir música por uma orquestra privativa, de seu nome “Capitólio Jazz”. Tudo complementado por um esmerado serviço de bar…
Nos dias de mau tempo, o terraço era encerrado e na sala de cinema passava a decorrer espectáculos mistos incluindo a 1ª sessão de cinema e a 2ª sessão de variedades e concerto.




Foram feitas obras de remodelação e conservação, acedendo-se ao exterior por amplas portas envidraçadas, que foram entaipadas na primeira remodelação em 1933. Ainda nesse ano foi montado no terraço-esplanada, uma cabine de projecção para sessões ao ar livre.
Em 1935/36, a planta de edificio foi novamente alterada sob a supervisão de Cristino da Silva. Foi acrescentado à sua estrutura primitiva mais um pavimento no balcão, além de frisas e camarotes, todo o palco foi reestruturado tal como a cabine cinematográfica. Ficou então habilitado a receber 1400 espectadores. 


Como tantos "gigantes" que existiram em Lisboa e que não resistiram, também o Capitólio começou a perder qualidade no seu programa artistico, chegando a transmitir filmes pornográficos. Em 1972, estreou neste cine-teatro o mítico filme de Gerard Damiano Garganta Funda, como também o famoso O Diabo em Ms. Jones, dois filmes pornográficos que marcaram a década de 70.
Com a entrada em decadência do Parque Mayer, também o Capitólio acabaria por perder público e encerrar no início dos anos 80. Em 1983 foi declarado imóvel de interesse público, mas nada foi feito desde essa altura para evitar que o abandono e a ruína tomasse conta do edifício. No novo milénio surgiu um projecto de grande envergadura destinado a reconverter o Parque Mayer e devolver ao espaço as luzes e público de outrora, mas no projecto estava prevista a demolição deste edificio com vista à construção de novas infra-estruturas.


Um grupo de cidadãos lutou para que tal não acontecesse e conseguiu que o Capitólio fosse inserido no "World Monuments Fund", na lista dos 100 edifícios de interesse histórico mais ameaçados. Esta acção levou a que actualmente a C.M.L. tomasse a decisão de manter o Capitólio, como espaço teatral, e abrisse um concurso internacional para a restauração do mesmo seguindo o projecto original do arquitecto Luis Cristino da Silva.


Em 2009, a Câmara Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade a atribuição do nome do actor Raul Solnado ao Cine-Teatro, visto que Raul Solnado chegou a ser empresário do Capitólio, mesmo que por pouco tempo, como também devido ao seu passado artistico em revistas no Parque Mayer.
O projecto de Reabilitação do Cine-Teatro Capitólio (agora denominado Teatro Raul Solnado) e o Plano de Pormenor do Parque Mayer são da autoria, respectivamente, de Alberto Souza de Oliveira e Manuel Aires Mateus.


Relativamente ao projecto para reabilitar o Capitólio, o que se pretende é uma aproximação cénica ao sítio urbano, neste caso o Parque Mayer,  reabilitando o espaço como lugar de teatro. A transformação do Capitólio passa por repor a sua “grande sala” e abri-la, lateralmente, para uma grande praça que “encaixa” o espectáculo.

  
A reabilitação do edifício pretende repor e melhorar o seu desempenho, atingindo a versatilidade compatível com os níveis de exigência das produções contemporâneas de espectáculos. A “grande caixa” poderá ser transformada numa única “arena”, experimentando os “limites”… explorando múltiplos formatos de espectáculos.
A flexibilidade exigida corresponde a ampliar a capacidade de uso, o que significa um apetrechamento técnico acrescido. Compatibilizar meios técnicos “mais pesados” com a leveza do edificado levanta o problema da “intocabilidade” do Capitólio como peça arquitectónica.



A retoma de funcionalidade do Capitólio passa pelo apetrechamento do “palco” e da “caixa” com meios técnicos de cena (luz, som e vídeo) sendo exigível que o “esqueleto técnico” pretendido seja minimizado, sob pena de “descaracterização” da “caixa”.
O recurso a meios técnicos de cena, implica reduzir a sua expressão arquitectónica, incompatível com o conceito da “caixa” e as linhas modernistas do edifício.

Será que vamos ver a resurreição deste antigo e belo monumento arquitectónico? Vamos ver...pelo menos que consiga ser salvo e que não padeça do mesmo mal do mitico Paris, que definha a olhos vistos em Campo de Ourique.


http://cidadanialx.blogspot.com/2010/04/projecto-do-cine-teatro-capitolio-por.html
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