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Cinemas do Paraíso: Amadora - Recreios da Amadora


Depois da visita a Norte pela cidade do Porto, retorno à zona de Lisboa, mais concretamente ao Concelho de Amadora, onde existiram (e ainda existem) espaços dedicados à mui nobre arte da exibição de filmes.

Hoje, vou começar pelo espaço mais antigo de todos: os Recreios da Amadora, localizado na Av.ª Santos Mattos, 2  na Venteira. A sua história começa com a fixação de atividade industrial na Amadora (acompanhando assim a sua expansão urbanística), com destaque para a "Fábrica de Espartilhos Santos Mattos & Cª", inaugurada em 1895, que empregava mão-de-obra local, instituindo-se como a principal unidade fabril da zona, com grande impacto social.

Assim nasceu a "Sociedade Recreios Desportivos da Amadora", constituída em 1912 por iniciativa do proprietário da referida fábrica, José Santos Mattos e de Antóno Rodrigues Correia. Numa primeira fase, a sua intenção era gerir os equipamentos desportivos anexos á fábrica, designadamente um campo de ténis e um ringue de patinagem. Contudo, o sucesso com a venda dos espartilhos, cintas e outros produtos determinou a necessidade de ampliação das instalações fabris e da atividade da sociedade, originando a inauguração do edificio dos Recreios em 1914.


Este edificio foi projectado por Guilherme Eduardo Gomes, o mesmo autor da Casa Aprígio Gomes, imóvel também situado na Amadora e que se encontra igualmente classificado. A sua inauguração ocorreu no dia 17 de agosto de 1914 e destinava-se à realização de festas, mas também à apresentação de preças de teatro. O edificio era vincadamente neoclássico, destacando-se a fachada principal com os seus três registos cenográficos, o último com frontão triangular que, antigamente, apresentava uma ampla composição escultórica no tímpano. Esta fachada sofreu alterações ao longo dos anos, desaparecendo toda a requintada decoração sobre os vãos do 1º piso, assim como o primitivo jardim rodeado pelo elegante gradeamento. No andar nobre, ainda é possivel observar um pano central rasgado por um janelão de arco de volta perfeita, que dá acessoa um varandim de secção ondulante e baluastrada de cantaria.


A partir da década de 1920, este salão deste edificio era utilizado por colectividades culturais e de recreio locais, através de cedência ou aluguer, recebendo no seu palco representações organizadas por companhias ou troupes dos teatros de Lisboa, multiplicando-se igualmente as sessões de cinema. A sala iria beneficiar de transformações ajustadas às necessidades de renovação da programação, sendo o palco ampliado em profundidade e instalada uma cabine de projecção no exterior, direccionada para o recinto de patinagem, inaugurando assim a época de patinagem e os espectáculos cinematográficos ao ar livre, em sessõesgratuitas para os sócios, mantendo-se assim atè à sua reconversão como espaço de exibição cinematográfica.
Para além da fachada, o restante edificio sofreu alterações ao longo do tempo, especialmente na década de 1940 do Séc. XX, quando a fábrica e os recreios foram vendidos. Por essa altura, este edificio seria convertido numa sala de cinema, sob a batuta do Arq.º Raul Rodrigues Lima, passando a dispor de 600 lugares, sendo que a sala era dotada de um balcão construído em betão.


Em 1979, numa altura em que cidade da Amadora encontrava-se em franco crescimento, este espaço (com a designação de Cine Plaza) sofreu remodelações, em que foram obturados dois arcos na fachada e destruído parte do recheio de mobiliário interior.


Recordado pela sua exclusividade enquanto espaço de entretenimento, pelo seu luxo e aura de nobre edificio deteriorado, era ao velho "Piolho da Amadora" (como era carinhosamente alcunhado), se associava o ritual de ir ao cinema, vivida por várias gerações como um acontecimento festivo, convivial, significativo e memorável. Muitos guardam na memória a imagem de uma sala um pouco degradada, mas que mantinha o seu balcão, plateia, camarotes e frisas e as cadeiras velhas. Com a nova designação, este espaço começou a apresentar estreias cinematográficas. No entanto, a sua função de cinema iria acabar no final da década de 1980, devido à sua inviabilidade económica. 

Este espaço seria adquirido pela Câmara Municipal em 1987, tendo sido lançado um concurso para a sua renovação, ficando esta a cargo do Arq.º Conceição Silva. Contudo, somente em 1997, o novo espaço abriu as portas, ostentando uma alteração total de interior e exterior, destacando-se as superficies em vidro, que prolongaram o edificio.


Actualmente, funciona como um espaço cultural polivalente, atuando como um polo produtor e difusor de cultura, nomeadamente nas áreas do teatro, dança. música, cinema, realização de exposições temporárias, cerimónias e actos intitucionais, atividades de associativismo local, entre outras.

Compreende um auditório, dois estúdios de dança/sala de ensaio, um salão nobre e um logradouro.

No auditório, realizam-se espectáculos de teatro, dança. música, cinema, sessões solenes, conferências, apresentações, reuniões e ensaios. Totalmente equipado a nível de luz, som e multimédia, tem capacidade total para 251 pessoas (215 na plateia e 36 no balcão). No que respeita ao equipamento cénico, o auditório é constituído por varas para suspensão de cenários e equipamento de luz, panejamentos (cortinas, pernas, bambolinas, fundos), ciclorama suspenso, tela elétrica de projeção para cinema, tela suspensa de projeção para seminários, linóleo preto/branco, régies de projeção de som, luz e multimédia, uma sala para reuniões e formação, quatro camarins individuais e dois camarins coletivos, com sistema de comunicação interna e um acesso técnico direto de viaturas à zona de palco.

O Salão Nobre tem como função a vertente de espaço expositivo, incindindo sobretudo nas artes plásticas. Paralelamente, este espaço recebe ainda eventos tão diversos como reuniões, apresentações, conferências e animações musicais. A lotação também é variável consoante o tipo de eventos a realizar, nomeadamente: nas exposições temporárias tem uma lotação máxima de 100 pessoas; nas apresentações, conferências e reuniões tem uma lotação máxima de 60 pessoas e nas animações musicais/teatrais/performances tem uma lotação máxima de 50 pessoas.

O logradouro constitui um espaço exterior com aproximadamente 450m², que pode acolher ocasionalmente, eventos de música, teatro, exposições, projeções de vídeo, entre outros.


Fontes:

- TOMAZ, Sofia Duarte Rodrigues. Cultura e Representações da Cultura. Uma leitura das práticas e políticas culturais a partir do estudo de caso Recreios da Amadora. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2014.
- http://www.cm-amadora.pt/cultura/recreios-da-amadora.html
- http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/10116588
- http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2014/08/recreios-da-amadora-amadora.html
- https://bloguedelisboa.blogs.sapo.pt/recreios-desportivos-da-amadora-48680
- http://www.lugaresesquecidos.com/forum/viewtopic.php?t=1559
- http://caisdoolhar.blogspot.com/2011/02/tambem-amadora-tinha-o-seu-piolho-em.html
- http://amigosdaamadora.blogspot.com/p/amadora-antiga-os-recreios-da-amadora.html
https://www.facebook.com/Amadora-para-todos-803315509761040/

Julio Deniz - cinema dançante


O regresso à cidade do Porto faz-se com a história de um cinema que se transformou num salão dançante. Falo do Cine-Teatro Júlio Deniz, rebaptizado de Danceteria Júlio Diniz, localizado na Rua de Costa Cabral, entre 317 e 335 e Rua do Lindo Vale.

Na década de 1940, surgiram na cidade do Porto salas de cinema robustas, autênticos monumentos arquitectónicos, que faziam jus à escala da Sétima Arte, como o Coliseu do Porto, o Cinema Vale Formoso e o Cinema Batalha. Foi considerado o período dos "cinemas templos". Na senda destas grandes construções, foi inaugurado em 1943, o Cinema Júlio Deniz (na época, uma das maiores salas da cidade), constituído por plateia e balcão.





Este cinema pretendeu ser modernista, com especial ênfase na torre da fachada principal, no intuito de se impor no contexto urbano (a Rua de Costa Cabral é uma artéria de expansão da cidade com linearidade de cérceas). Por este motivo, sempre foi considerado um “cinema de bairro”, que procurava atender às populações da periferia. O seu carácter modesto e formas desproporcionadas impediram que tivesse um valor arquitectónico relevante. A edificação conforma-se dentro de um lote urbano regular de duas frentes. 

O autor deste projecto, o Mestre Manuel da Silva Passos Júnior, pretendeu edificar um cinema que não impedisse o trânsito e que não provocasse aglomerações à sua porta. Por isso, dividiu a planta em duas partes distintas: a primeira destinada ao público em geral, que tinha acesso pela Rua do Lindo Vale, com serviços independentes; a segunda entrada era feita pela Rua Costa Cabral, reservada para o público da restante plateia e do balcão.
A entrada principal deste lado foi projectada, de modo a permitir a compra de bilhetes num local abrigado, já dentro do edifício, sem obstruir o passeio e, portanto, o trânsito.


Era propriedade da empresa Rocha Brito e VigoçoAo longo da sua existência, oferecia programações alternativas às salas principais da cidade, onde se efectuavam as grandes estreias.
Após 25 de abril de 1974, começou a exibir filmes pornográficos por causa da falta de espectadores.

Actualmente, este espaço funciona como sala de espectáculos de variedades, com matinés dançantes às 3ª e 5ª feiras. Retiraram-se as cadeiras das filas da frente para a instalação da pista de dança e abriu-se um vão lateral, proporcionando uma relação mais franca com o bar. O pequeno palco é suficiente para albergar uma banda reduzida, mantendo-se os restantes elementos. A reabilitação fez-se mais ao nível da instalação de uma nova função compatível, do que propriamente na recuperação da imagem integral do edifício.




Tem recebido nos últimos anos o Festival DDD - Dias da Dança.




Fontes:

- CALOR, Inês Alhandra, Reabilitação de Cinemas Modernistas - Caracterização do Contexto Urbano Ibérico, Relatório de Estágio, Câmara Municipal do Porto, Porto 2003-2004
FERREIRA, Tiago Resende Araújo, A Sala de Cinema, Dissertação de Mestrado,ESMAE, Porto 2013-2014
- https://ruasdoporto.blogspot.com/2012/10/o-porto-e-os-cinemas.html
- https://www.publico.pt/2005/08/15/jornal/combater-a-solidao-num-antigo-cinema-34761
. http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2013/01/julio-deniz-porto.html
- https://www.timeout.pt/porto/pt/atraccoes/julio-deniz
- https://digitarq.cpf.arquivos.pt/viewer?id=1178484
- https://digitarq.cpf.arquivos.pt/viewer?id=1178485
- https://digitarq.cpf.arquivos.pt/viewer?id=1178486

Cinema Vale Formoso: para quando a sua recuperação?


Depois de umas merecidas férias, volto novamente à cidade do Porto para visitar um cinema cujo edifício ainda se mantém inalterável (pode se dizer que até está muito bem conservado, mas que há muito deixou de cumprir as funções para o qual foi destinado. Refiro-me ao Cine-Teatro Vale Formoso.


Este edifício foi construído em 1944, sob a alçada do projecto da autoria do Arqt.º Francisco Granja. A sua abertura ao público ocorreu em 1949 e a sua localização, na Rua São Dinis, indicava que era mais um "cinema de bairro".


Entre as décadas de 1950 e 1970, este cinema (a par de outros como o Júlio Dinis, Terço, Passos Manuel, etc.) foi considerado como uma das salas de referência da cidade do Porto, tendo sido explorado pela Lusomundo.
No entanto, no inicio da década de 1990 assistiu-se ao encerramento desta sala, tendo sido adquirida pela IURD (mais uma vez!!), depois da tentativa infrutífera de aquisição do Coliseu do Porto. Até 2010, este cinema foi utilizado como o santuário da IURD, mas acabou por fechar portas quando a mesma mudou-se para a sua nova catedral na Rua Serpa Pinto. 
O edifício mantém a plateia de 900 lugares, mas sofreu alterações nomeadamente um novo palco feito em mármore.









Actualmente continua a pertencer à IURD, embora haja intenção por parte desta em vender o edifício, por já não necessitar dele.

Fonte:
http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2012/05/cine-teatro-vale-formoso-porto.html
http://jpn.c2com.up.pt/2013/05/19/porto_a_nova_vida_das_velhas_salas_de_cinema.html

Cinemas do Paraíso: Évora


Depois de uma bela visita ao Norte do país, regresso ao Sul e rumo ao Alentejo até à cidade de Évora, para falar de mais uma belíssima pérola arquitectónica de seu nome Salão Central Eborense, que ainda permanece de pé actualmente .


Este espaço iniciou funções como animatógrafo em 1916, resultante de uma adaptação de um barracão anexo ao Hotel Eborense feita pelo seu proprietário José Augusto Annes.
Compunha-se por quatro pisos integrando um restaurante e salas de recreio, conseguindo acomodar perto de 784 espectadores distribuídos por: 308 lugares na plateia, 264 lugares na geral e 212 lugares nas frisas e sendo servido por energia eléctrica produzida a partir do gerador próprio. 






Em 1922, esta sala de espectáculos foi remodelada através de um projecto provavelmente da autoria de José Oreiro Teixeira, para poder receber companhias e artistas para além das sessões de cinema. Em 1923, este espaço reabre as portas como cine-teatro e em 1931 estreia o cinema sonoro.
Em 1943, e tendo como proprietária Dª Judite Sanches de Miranda, o Salão Central Eborense sofreu obras devido ao chumbo numa vistoria em 1934, e como era a única sala de cinema da cidade alentejana decidiu-se avançar com novas obras de melhoramento das instalações, proporcionando assim comodidade e segurança aos espectadores, tendo sido escolhido o Arqt.º Francisco Keil de Amaral, responsável pelo projecto de arquitectura da presença portuguesa na Exposição Internacional de Paris em 1937. A nova sala seria inaugurada em 1945.




No entanto é de ressalvar que já existia em Évora um outro espaço de exibição de filmes, mas ao ar livre. Chamava-se Éden Esplanada e, durante quarenta anos, foi o único cinema ao ar livre desta cidade ocupando o lugar do demolido Convento de Santa Catarina. 



O projecto da renovação do Salão Central Eborense incidiu sobretudo no seu interior, constituído por um foyer, dois átrios e necessárias instalações técnicas (projecção) e de serviço (sanitários); o palco, no que concerne à edificação anterior, transitou do extremo nascente para poente; no entanto a profundidade do palco era exígua reduzindo a sua utilização para o teatro. A lotação é diminuída para 548 lugares distribuídos por: 324 lugares na plateia, 214 lugares no balcão e 10 lugares nas frisas.
Em 1945 estreia nesta sala o filme Sonho de Amor do realizador Carlos Porfírio que só viria a estrear em Lisboa em 1948.



Nos anos seguintes, a afluência aos espectáculos cinematográficos deste espaço começou a decair devido ao aparecimento da televisão que se tornava cada vez mais acessível a toda a população. O aparecimento do Cinema Alfa em Évora nos anos 80, um espaço mais confortável e com uma melhor qualidade de filmes e imagem, como também o aparecimento dos video-clubes aumentaram as dificuldades de manutenção deste salão que, na sua derradeira despedida já exibia filmes pornográficos. Em 1988 e com muitas dificuldades, acabou por encerrar definitivamente a sua actividade cinematográfica. 
Houve tentativas de reavivar este espaço nos anos seguintes com a Empresa "Manuel Themudo Baptista" a arrendá-lo com o consentimento da C.M. Évora a outras entidades como uma rádio local, uma seita religiosa, etc. Em 1996, a Autarquia comprou o imóvel mas, desde essa altura, o edifício tem vindo a deteriorar-se devido à falta de verbas que permitiriam a recuperação do espaço.
Em 2009 foi anunciado um projecto de requalificação do Salão Central Eborense num acto simbólico onde foi constituída a Évora Regis, SA, empresa estabelecida, com a Câmara Municipal de Évora, no âmbito de uma parceria público-privada.
O objectivo desta PPP incluía a concepção, implementação, desenvolvimento, construção, instalação, equipamento, conservação e manutenção deste espaço da cidade alentejana. Com o prazo previsto de um ano, a parceria visava requalificar o Salão Central Eborense, mantendo a traça original.
No entanto, passado quase quatro anos, o edifício continua a degradar-se em pleno Centro Histórico de Évora.





Fonte:
http://viverevora.blogspot.pt/2012/08/a-historia-do-salao-central-eborense.html
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2012/06/salao-central-eborense.html
http://acincotons.blogspot.pt/2011/11/breve-resenha-historica-sobre-o-salao.html

Cinemas do Paraiso: São Miguel, Açores


Hoje deixo o continente e viajo até aos Açores, mais concretamente à ilha de São Miguel para falar de um teatro que foi edificado no séc. XIX e que, apesar de alguma turbulência durante a sua existência, continua a ser uma importante referência cultural desta ilha.



O Teatro Micaelense foi oficialmente inaugurado em 1865, embora  o espaço não tivesse totalmente construido. Foi uma estreia auspiciosa com direito à presença da mais seleta sociedade micaelense, como também à entoação de um hino composto propositadamente para este evento e que tornou a cerimónia ainda mais extraordinária.
Foram apresentadas algumas peças representadas por uma companhia contratada para o efeit com atores como Joaquim Ferreira Ribeiro (do Teatro da Trindade), António da Silveira Gil e João da Silva Gil, Francisco Fernandes, José António de Lima, João de Andrade, Miguel Epifânio de Sousa, e pelas actrizes Elisa da Conceição Sousa, Maria José Fernandes, Gertrudes Carlota e Emília de Sousa.
Era uma obra que possuia uma matriz neo clássica que simplificava elementos definidores, semelhante aos teatros Apolo e Trindade em Lisboa na sua amplitude e com um átrio de entrada enorme, com acesso a cinco portas de arco redondo tendo em cada lado bilheteira e bengaleiro. No primeiro andar localizavam-se o salão, a secretaria e as toilettes das senhoras. No segundo andar situava-se a sala de pintura com frontão triangular. A sala de espectáculos era circular e dispunha de 16 frisas, 38 camarotes, 12 torrinhas, 42 lugares de superior, 216 lugares de geral e 102 lugares na galeria. O palco separava-se da plateia pelo fosso de orquestra com capacidade para 30 músicos. Dispunha ainda de 19 camarins, mais um coletivo, salas para ensaio de coros, guarda-roupa, oficinas técnicas e de arrecadação e um café independente, com entrada pelos corredores e pelo exterior.
Há medida que o tempo foi passando, este espaço seria remodelado adaptando-se às exigências do público aristocrata que o frequentava, como também ao progresso. Exemplos disto são: a colocação de candeeiro a petróleo no teto; as ornamentações de madeira entalhada e gesso dourado; o alargamento do proscénio e adaptações técnicas para a visualização de filmes.
Este espaço foi palco de diversos eventos importantes da cidade de Ponta Delgada durante sessenta e cinco anos. A elite da sociedade da época era entretida em serões concorridos enquanto o tempo era de grandes reviravoltas, visto que a queda da monarquia estava para breve, de modo a ser implantada a República.
Em 1930, este teatro foi vítima de um violento incêndio que ameaçaram os edificios circundantes, entre os quais a repartição de Finanças. Muito do interior do edificio foi reduzido a cinzas, escapando apenas os camarins, o foyer e o café anexo. O mobiliário foi grandemente danificado, resultando em prejuizos avultados, visto que o Teatro estava seguro por uma quantia muito inferior aquilo que realmente valia.
Em 1931, os escombros do antigo edificio seriam demolidos, sendo encomendado um projeto de edificação de um novo teatro. Para esse efeito foi constituida a Sociedade Particular Civil Teatro Micaelense, cujo Conselho de Administração era composto por distintos membros da sociedade açoreana, e lançada uma campanha na imprensa de aquisição de ações da nova sociedade.
O arquiteto escolhido para desenhar o novo Teatro foi Raul Rodrigues Lima, autor do belissimo Cine-Teatro Monumental em Lisboa, sendo que o novo edificio ficaria marcado por umas linhas severas e volumes racionais, com pitada de elementos seiscentistas que caracterizavam a estética arquitetural dos anos 40.


O processo de edificação não foi longo e iniciou-se em 1946. Este novo espaço era amplo e aprimorava-se no Salão Nobre, decorado com colunas de mármore negro e pilares de marmorite, iluminado com três lustres montados sobre espelhos de arestas polidas.
A sala de espetáculos, em forma de leque, albergava 1200 espectadores que se distribuiam por dois pares de frisas de cena junto do palco, com fosso de orquestra, primeiro balcão precedido de camarotes abertos avançando sobre a plateia e um segundo balcão elevando-se separadamente por detrás do primeiro. Para exibir cinema este espaço apetrechou-se com dupla aparelhagem Gaumont-Kallee. Cinco anos depois do inicio das obras, e com milhares de contos gastos, O Teatro Micaelense renasceu num local diferente, com ruas e contruções novas, e a sua inauguração foi magnânima e bastante comunicada na imprensa açoreana.


Este espaço foi sobrevivendo com dificuldades ao longo dos anos por causa das constantes exigências de manutenção e modernização e isso fez-se notar nas contas. Para que houvesse injeção de capitais, o Teatro foi-se tornando acessivel aos micaelenses, de modo a que estes pudessem comprar parcelas do mesmo. Em 1964 foi criada a nova sociedade gestora deste teatro designada de Cinaçor, Sociedade de Teatro e Cinema, S.A.R.L.
Sob esta direção, a pintura da sala de espetáculos foi renovada em 1967, como também houve melhorias no equipamento, tendo sido adquirido um moderno conjunto de projetores e respetivo comando de resistências elétrica e uma aparelhagem de amplificação de som, indispensável para o desenvolvmento do teatro. No seguinte, seriam feitas pinturas do palco, camarins e corredores de acesso e o arranjo dos respetivos pisos, como também a instalação de um novo ecrã e equipamento de projeção. Graças à exibição diária de filmes, o teatro ganhava audiências e atraía públicos diversificados, fazendo com que  fosse considerado como a sala de visitas da cidade.
Com o advento do 25 de Abril de 1974, os hábitos sociais modificaram-se, levando a uma crise no cinema, desviando o público das casas de espectáculo e estrangulando as receitas, conduzindo as mesmas a uma sobrevivência angustiante. Em 1977, foi instalado um restaurante no rés-do-chão e na galeria do edificio, como também, anos mais tarde, uma discoteca de seu nome "Ópera". Mas a situação financeira da Cinaçor ia se agudizando, apesar dos esforços e isso não era suficiente para a manutenção da vda desta casa de espetáculos.
A década de 80 e 90 foi negra para este espaço com a queda vertiginosa das receitas de bilheteira; a acelerada degradação das instalações e a inadequação a novas exigências técnicas, fazendo temer a sua demolição tal como acontecera com o Cine-Teatro Monumental em 1984.
Em 2001, a Cinaçor foi dissolvida e deu origem a duas novas empresas: a CM, Sociedade de Investimento Imobiliário, S.A. e a Teatro Micaelense S.A.
Apostou-se na modernização e potenciamento do espaço para revitalizar o Teatro, adequando-o às novas exigêncas técnicas e  permtindo uma maior capacidade de resposta de toda a estrutura. O arq.º Manuel Salgado foi o responsável pelo projeto de recuperação, rasgando novas áreas e aproveitando outras que não tinham sido concluidas, de modo a que o espaço pudesse ter múltiplas funções (espetáculos, exposições, congressos, seminários e conferências). Contudo, a opção foi manter os modelos estéticos do cinquentenário edificio. Redesenhou-se a boca de cena; ampliou-se o fosso da orquestra er modernizou-se a teia de palco, alargando as possibilidades de exibição de espetáculos de dança, teatro, etc. garantindo qualidade na audição dos espetáculos. Diminuiu-se a capacidade para 800 lugares para optimizar o espaço, como também o espaço foi adaptado às necessidade de mobilidade dos deficientes e modernizado em questões de segurança.





 Esta obra de reabilitação custou a módica quantia de 7 milhões de euros e, à semelhança do que acontecera anteriormente, o esforço de obra foi enorme, aproveitando-se todas as cadeiras da sala de espetáculos e mantendo-se os lustres do Salão Nobre que, por razões de segurança, nunca foram retirados dos tetos. Em 2004, o novo Teatro, com o subtitulo de Centro Cultural e de Congressos,  foi inaugurado pronto para avançar destemido pelo séc. XXI.


Antes mesmo de findar esta crónica, deixo-vos com uma história engraçada e mítica que envolve o Teatro Micaelense.
No dia 23 de Junho de 1963 atracou no Molhe Salazar em Ponta Delgada, um iate luxuoso de 288 toneladas e com 12 tripulantes designado de "Wild Goose", cujo dono era a estrela internacional de cinema chamada John Wayne, o eterno cowboy.
Foi o inicio de uma visita de quatro dias à ilha de S. Miguel, destino que Wayne quisera incluir no seu itinerário que como destino final a nossa vizinha Espanha.
Durante a sua estadia, Wayne distribuiu simpatia à sua volta e visitou os principais pontos turisticos da ilha, nomeadamente as Sete Cidades e as Furnas. Também visitou o Teatro Micaelense, tendo assinado o Livro de Ouro do Teatro.
Na madrugada do dia 27 de Junho, o iate de Wayne zarpou do Molhe Salazar com pouca gente a assistir. Mas o ator fez questão de acenar a essas pessoas, despedindo-se de uma forma delicada de um povo que o recebeu da melhor maneira possivel.
http://citizengrave.blogspot.pt/2012/10/cinemas-teatros-e-cine-teatros-2.html
http://westerneuropeu.blogspot.pt/2012/08/john-wayne-em-saomiguel-acores-junho.html
http://www.origens.pt/explorar/doc.php?id=8760
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/04/FLT_inaugura%C3%A7%C3%A3o_Teatro_Micaelense.jpg

Cinemas do Paraíso: Almeirim





Depois das férias, chegou a altura de viajar novamente por esse país fora...e a escolha recai sobre a zona da Estremadura, mais concretamente em Almeirim.
Como se pode imaginar, o cinema foi um grande acontecimento no nosso país quando surgiu na primeira década do séc. XX. A partir daí, o cinema foi se espalhando por várias localidades portugueses, como Almeirim, onde se registaram algumas experiências que iam cativando adeptos.
Em 1930, já existia a Associação Recreativa de Almeirim que tinha a seu cargo a manutenção do espectáculo cinematográfico, como também a realização de outros espectáculos, sendo eles exibidos no salão da Sede da Associação.
Nessa altura, as sessões eram feitas em dois lugares conforme as estações do ano: no Verão realizavam-se ao ar livre, no Inverno na sede da Associação na Rua 5 de Outubro.  Em Junho desse ano inaugurou-se o cinema ao ar livre, exibido nas antigas Cavalariças Reais, gentilmente cedidas pelos proprietários. Os grandes êxitos do cinema mudo eram acompanhados por uma orquestra, para gáudio do público. 
Anunciou-se entretanto a constituição de uma nova empresa que iria edificar um cinema com grandes comodidades, ficando situado numa artéria central da vila.
Em 1931 surge a noticia do aparecimento do cinema sonoro, o que obrigou em 1933 a que a Direcção da Associação se esforçasse para trazer o som para o equipamento utilizado. Foi adquirido um sistema Philisonoro que, apesar de alguns percalços iniciais, foi considerado o melhor aparelho sonoro do distrito.
Em 1933, o público galvanizou-se com a exibição do filme português "A Severa" e este sucesso fez com que a ideia de construção de uma nova sala de espectáculos ganhasse forma. E assim inaugurou-se o edifício do Cine Teatro na Praça da República em 16 de Junho de 1940 com a peça de teatro "A Inimiga", interpretada pela actriz Maria Matos. O primeiro filme exibido foi uma estreia em Portugal e intitulava-se "A Serenata de Schubert".
Segundo  Ulisses Pina Ferreira, o antigo gerente desta sala,  a máquina de exibição era a carvão. A combustão de dois palitos de carvão produzia a luminosidade necessária para projectar as imagens na tela. Esta máquina acabou por ser substituída na década de 1950 por outra que se manteve até ao encerramento da sala.
Também é interessante realçar o custo do bilhete em 1940: 5 escudos. Na plateia era mais barato, entre 4 escudos (2 cêntimos) e 1 escudo e 50 centavos. Também existiam vários bancos corridos em madeira destinados aos camponeses devido ao preço barato. 
O espaço albergava 599 pessoas, mas na maior parte do tempo existiam pessoas nos corredores e escadas, devido à afluência enorme. A maior parte da assistência era composta pelos fazendeiros que faziam marcações permanentes e lugares marcados.
Outra história interessante é de que a sala era vistoriada pela policia e bombeiros antes de se iniciar o espectáculo, de modo a garantir a segurança dos espectadores...se houvesse alguma cadeira oscilante, era certo de que não haveria espectáculo.
Por esta sala passaram grandes companhias teatrais de Lisboa e amadoras, exibindo ao longo dos anos muitos espectáculos agradáveis de teatro e variedades e sempre com grande interesse.
Na década de 1960, a grande atracção era a exibição de filmes de cowboys. Após o 25 de Abril, esta sala fartou-se de exibir os chamados "filmes proibidos", recuperando o tempo em que a ditadura controlava o consumo do povo. Depois vieram os filmes pornográficos. Mais tarde, a concorrência de salas mais modernas afastou este cinema das grandes estreias e dos filmes de sucesso, acabando por provocar o seu encerramento em 1993.
No entanto, o destino deste cinema foi a renovação e edificação. Um novo espaço foi erigido no mesmo local para possibilitar ao povo de Almeirim o direito a ter uma casa de espectáculo. Manteve-se a fachada original desenhada pelo Arq.º Amílcar Pinto, responsável também pelo Teatro Rosa Damasceno em Santarém.

Cinearte - um "grande" reincarnado....


No dia 1 de Dezembro de 1981, dois "grandes" cinemas de bairro encerravam as portas ao público cinéfilo de Lisboa. Um deles foi o Cinearte, que actualmente alberga a companhia de teatro "A Barraca".
No Largo de Santos, muito antes de ser um bairro de diversão nocturna, foi apresentado em 1937 um projecto para se erigir um cinema à Inspecção Geral dos Espectáculos, que tinha como nome original "El Dorado".


Seria construido na Rua Vasco da Gama e o autor do projecto foi o famoso Arqtº Raul Rodrigues Lima, responsável por outros projectos colossais de arquitectura como o Cinema Monumental, o Palácio da Justiça no Porto, etc. No projecto original, esta sala tinha uma lotação de 790 lugares, distribuidos pela plateia (478) e balcão (312).
No ano seguinte a construção do novo cinema é licenciada com uma outra designação de "Vasco da Gama", obedecendo a algumas alterações. Em 1939/1940, o projecto volta a sofrer alterações, como também um novo nome de "Cinearte".


A obra é concluida em 1940 e a licença de exploração é concedida com as exigências de se limitar a lotação da sala  e a colocação de corrimões nos 2 lados de todas as escadas. A 13 de Novembro de 1940, o Cinearte abria as suas portas com a transmissão do filme "Não o  levarás contigo" de Frank Capra com James Stewart e Jean Arthur.




Em 1945, foi feita mais uma intervenção nesta sala, substituindo-se as cadeiras da plateia de modo a obter-se espaço entre as filas, passando a lotação de 610 lugares para 588.






A Sociedade Administradora de Cinemas Lda. tinha sido a gestora deste cinema desde a sua construção, só que em 1972 abandona o cargo passando a gestão para a firma A.Ramos, Lda.
Em 1973, o Cinearte é encerrado de modo a que se procedam a obras de beneficiação no interior. As obras, concluidas em Outubro do mesmo ano, resumiram-se a pinturas interiores, revisão da instalação eléctrica incluindo um novo tipo de iluminação, melhoramentos no auditório como também nos espaços de circulação e apoio ao público.
No entanto, estas obras não iriam impedir o encerramento do Cinearte. Quando o bairro de Santos começou a tornar-se num ponto fulcral para a animação nocturna em Lisboa, já este cinema estava em franco declinio.


Só em 1990 é que o Cinearte foi reactivado como sala de teatro, depois de ter sido adquirido pela companhia teatral "A Barraca", mantendo essa função até à actualidade. Em 1993, o projecto do Arqº Rui Pimentel sacrificou uma parte significativa do espaço interno original, construindo-se assim a Sala 2.


E assim mais uma sala de cinema deixou de existir para reincarnar num teatro, mas mantendo o belo edificio original, evitando-se assim mais um atentado à arquitectura do passado que tanto dignificou a cidade de Lisboa.


Fonte: http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2011/09/cinema-cinearte.html
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(e1bsnh45k35ovozqfgfqf145))/SearchResultOnline.aspx?search=CINEARTE&type=PCD&mode=1&page=0&submode=0&useaut=0&useesp=0&res=0&set=%3bAF%3b
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