Monumental: o "Gigante" dos anos 50




A arquitectura dos cinemas portugueses ganhou um segundo fôlego na década de 50 com o aparecimento de grandiosas salas que, devido às novas possibilidades técnicas, ao "Cinemascope" e aos ecrãns gigantes, exigiam um espaço enorme. Foi nesta década que começaram a surgir salas que podiam atingirm os 2000 lugares!
Os novos cinemas deixaram de ser fachadas ou esquinas em ruas para ocuparem quarteirões inteiros, sendo considerados como autênticos monumentos urbanos, pontos de referência dentro da cidade.
Um desses cinemas e aquele que se tornou na referência maior do espaço-cinema em Portugal foi o Monumental e o seu nome diz tudo: grandeza, imensidão, colossal...um enorme ponto de referência de Lisboa, mais concretamente na Praça do Saldanha, onde existiu durante largos anos. Foi cinema e teatro, inaugurado a 14 de Novembro de 1951 e teve como obreiro o Arqº Raul Rodrigues Lima (responsável pelo Cinema Cinearte, inaugurado em 1940) que iniciou este sofisticado e complexo projecto em 1944, devido às exigências cnematográficas que se adivinhavam e que glorificariam este cinema como espaço de imagens gigantes, sons estereofónicos e efeitos que faziam estremecer e sonhar.



   

O edificio era marcado por gigantescas estátuas no seu exterior e o átrio era amplo, um local de passagem e encontro para muita gente, tal como o café-restaurante. Os lustres e mármores aglomeravam-se na decoração do interior da sala e das galerias. A sala de cinema era composta por 2710 lugares e a de teatro era composta por 1182. 
Para rentabilizar melhor o espaço interno, o arquitecto introduziu três balcões que se prolongavam lateralmente até ao palco e ainda dois camarotes “avant-scène” ricamente decorados.
  





No seu interior, havia um gigantesco foyer, muito à Hollywood, com mármore, dourados e lustres.




A entrada principal do edifício, comum a todos os espectadores, fazia-se pelo grande vestíbulo principal semi-exterior que, comunicando directamente com a Praça Duque de Saldanha por meio de uma arcaria de volta perfeita, funcionava quase como um prolongamento desta. A sala de teatro, com eixo central paralelo à Av. Praia da Vitória, possuía dimensões mais reduzidas de modo a aproximar os espectadores do palco.
A sala de cinema, com eixo central paralelo à Av. Fontes Pereira de Melo, possuia grandes dimensões permitidas pelo grande ecrã existente e pelos altifalantes que regulavam o som de acordo com as dimensões da sala. Comportando dois balcões, esta sala constituía... a referência mais imensa do espaço-cinema em Portugal : a sala cheia parecia uma cidade!.
No topo do edifício funcionava um atelier (onde se faziam cartazes dos filmes) que, mais tarde,  transformou-se numa pequena sala-estúdio, o Satélite, que foi inaugurada em 1970 com o filme Coisas da Vida  com Romy Schneider e Michel Piccoli. 

 




O exterior do Monumental era de pedra, com colunas, estátuas decorativas e esferas armilares de ferro que estão actualmente junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Belém. Na lateral da Avenida Fontes Pereira de Melo albergou o famoso café restaurante “Monumental”.




Muitos dos grandes nomes dos primórdios da música rock portuguesa passaram pelo este palco, tendo ficado na memória de muitas pessoas uma noite a meio dos anos 60 em que os Gatos Negros, a maior banda rock portuguesa na altura, chegaram ao ponto de encherem a Praça do Saldanha, numa altura em que qualquer ajuntamento com mais de cinco pessoas era estritamente proibido. Enquanto uma multidão se juntava na praça, lá dentro milhares de fãs esgotavam por completo o recinto, e Victor Gomes todo vestido de cabedal preto, corria pelo palco de microfone em riste dando os seus famosos saltos à Tarzan levando ao delírio o público. Outros tempos...Neste cinema foram exibidos grandes produções como 20 000 Léguas Submarinas, West Side Story, A Bela Adormecida, My Fair Lady, Ben-Hur, 2001- Odisseia no Espaço e o incontornável Star Wars - Guerra das Estrelas, numa caminhada anunciada para o seu término que ocorreu em 1983, devido á falta de público que justificasse os custos de manutenção.




Antes da sua morte, o Arqº Raúl Rodrigues Lima visionou um projecto que almejava a completa remodelação do Monumental, de acordo com os novos tempos e hábitos do público de cinema. A grande sala dividida em pequenas salas e a entrada aproveitada para várias lojas tornariam decerto o cinema rentável.
Contudo de nada valeu o seu esforço, pois não estava em questão salvar um espaço, mas sim de arranjar uma justificação para vender e rentabilizar o espaço ocupado pelo Monumental.


Numa manhã de 1984, os lisboetas acordaram com a noticia que não estavam à espera de ouvir que abordava a demolição do Monumental. As pessoas começaram a acorrer ao local em número cada vez maior e a contestação foi enorme. Ficava claro que a C.M.Lisboa era impotente para travar o poder crescente dos empreiteiros da construção civil sobre os imóveis
pertencentes a particulares. A queda do Monumental foi o ponto de partida para a demolição de outros grandes cinemas. Salvaram-se os que foram classificados à pressa como património nacional ou foram convertidos em teatros ou igrejas. A demolição do Monumental traumatizou durante anos os lisboetas, assinalando assim o fim de uma era.
No mesmo local ergue-se hoje um moderno edifício, também chamado Monumental, com escritórios e lojas e quatro salas de cinema, a maior das quais com 378 lugares...um monumento aquém do esplendor que o anterior representava para a cidade de Lisboa.



Fonte: Fernandes, José Manuel (1995) Cinemas de Portugal. Edições Inapa.

8 comentários:

ié-ié disse...

Bom dia! É fidedigna a fonte que lhe permite dizer que as esferas armilares que estão no Padrão dos Descobrimentos pertenciam ao Monumental? Mas o Monumental não tinha só uma?

Cumprimentos,

Luís Pinheiro de Almeida

Waveygirl disse...

Boa Tarde Luis

Esta informação retirei do blog "Restos de Colecção", conforme se encontra na minha listagem de fontes referentes a este cinema.
Constatei que colocou a mesma questão ao Sr. José Leite, o autor do referido blog, e ele respondeu-lhe que tinha obtido essa informação numa tese de mestrado, presumo que da Universidade de Coimbra, como lá se encontra nas fontes que ele utilizou para falar sobre o Monumental.

Com os melhores cumprimentos
Waveygirl

ié-ié disse...

Viva, boa tarde! Ainda não tive ocasião de ver a resposta de José Leite, obrigado pela chamada de atenção.

Também eu tinha a ideia de que as esferas que estão no Padrão eram do Monumental, mas a "Time Out", que falou sobre o assunto diz que não obteve fontes seguras e coloca uma questão pertinente: as do Monumental são duas, no Padrão só está uma. Uma questão para continuar a investigar.

Muito obrigado!

LPA

Rui Franco disse...

E não foi só o Monumental que foi destruído: foi também o quarteirão onde hoje está o Atrium (apesar de tudo, um edifício bonito) e os prédios de esquina onde estão a construir um hotel.

Acreditem que é meramente uma questão de tempo até que a Praça do Saldanha tenha sido toda "substituída". Que crime!

Miguel disse...

Boa noite! Posso confirmar que realmente a esfera armilar que se encontra ao lado do padrão dos descobrimentos pertencia ao antigo Monumental e a título de coriusidade posso acrescentar que as estátuas que se encontravam na fachada estão atualmente nos jardins contíguos à igreja de São João de Deus na Praça de Londres.

Excelente blog, sem dúvida um dos meus preferidos.
Cumprimentos

Miguel Freire

Rui Ferrao disse...

Ola O cineetro monumental era lindo majestoso Pedra um idificio nem terramoto o fasia cair era de lisboa dos lisboestas da cultura se lisboa sobese tomar conta dos deus edificios nobres seu patrimonio da Lugar mostros vidro como mamarracho esta la viola pdm da zona como outros idificios plastico espalhados pela cidade da pura especulacao imobeliaria.Hironico nao foi um terramoto daito abáixo mas mentes brilhantes imperavam na camara na altura..Tanho um Grande carinho pelo cinema teatro Monumental e por a Laura Alves caio desta vida mais depressa 1986 com tal desgosto acto barbaro toca camartelo..Pena e saúdades...Restaurem estatuas na praca de londres obrigado..Um abraco a todos parabeis pelo site..

T disse...

Era simpático assinalar que muitas imagens que publica, foram retiradas do blogue Dias que Voam e por mim digitalizadas das publicações da época.

Cristina Tomé disse...

Cara T

Eu costumo colocar o link para os sites onde encontro as fotos que ilustram os textos que publico. Aliás, a grande maioria das fotos sobre o Monumental foram tiradas do blogue "Restos de Colecção". Se por acaso, tirei alguma foto do seu blogue e não referenciei peço desculpa...foi mesmo lapso. Se me poder indicar quais as fotos do seu blogue, eu colocarei o link para elas no texto.
E se a cara T. der uma vista de olhos por este blogue, existem textos onde utilizo informação do seu blogue e que faço referência. Por isso foi mesmo um lapso.

Obrigada por me ter avisado da situação.

Com os melhores cumprimentos

 
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