Paris: crónica de uma morte anunciada...


Como descrever a triste situação de que padece o antigo (e belo) Cinema Paris em Lisboa? É isso mesmo...uma situação triste, confrangedora e de bradar aos céus. Um outrora edifício que embelezava a zona do Jardim da Estrela, agora não passa de um mastodonte a cair aos pedaços que ninguém quer saber...

O percurso histórico deste cinema inicia-se em 1915, quando abriu as portas ao público que habitava na zona de Campo de Ourique. Este edifício localizava-se na Rua Ferreira Borges e tinha a designação de Cine Paris. Era uma sala modesta, sem grandes comodidades, pouco mais que um barracão, mas era o único que distraia a população daquela zona.
Em 1917, uma nova empresa gerida por Vítor da Cunha Rosa (empresário cinematográfico deveras conhecido na época), adquiriu este espaço e introduziu-lhe modificações profundas tanto no interior, como também no alindamento do ambiente e na comodidade que seria oferecida ao público.
Para além das alterações na plateia, onde a geral  foi reduzida para metade de modo a atribuir mais espaço para as fauteuils e cadeiras. Com estas alterações o balcão sobressaia, dando um novo ar ao espaço pintado de branco e ouro.
No entanto em 1929, uma medida introduzida pela Inspecção Geral dos Espectáculo relativamente à segurança exigida nas casas de espectáculos encetou uma vistoria a este cinema, tendo se concluído que o mesmo precisava de ser imediatamente encerrado devido à sua construção ter sido feita com materiais combustíveis.
Com o encerramento do Cine Paris, a empresa que o geria apresentou um projecto com as modificações que pretendia introduzir no edifício provisoriamente, enquanto não era construído um novo salão noutro local. As modificações consistiam no revestimento dos madeiramentos existentes por ferro ou amianto, para além do alargamento de escadas e coxias. Este projecto acabou por ser aprovado e o cinema acabou por ser ampliado, passando a ter uma lotação distribuída por 6 camarotes de 4 entradas, 2 de cinco lugares, 102 nos balcões, 37 fauteuils, 281 cadeiras e 119 gerais.
Em 1930 é constituída a empresa Sociedade Geral de Cinemas, Lda., gerida por Vítor da Cunha Rosa e o seu filho, Jayme da Cunha Rosa, que leva a cabo a construção de uma nova casa de espectáculos na Rua Domingos Sequeira, nº 30, que teria a sua designação mais conhecida: Paris Cinema.
O autor desta pequena beleza arquitectónica foi o Arqt.º Victor Manuel Carvalho Piloto, que criou uma sala de cinema de bairro que estava apetrechada com todas as comodidades, de modo a conseguir atrair público. O balcão possuía termómetro, os camarotes estavam providos de mesas para serviços de chá e existiam alguns lugares isolados, de modo a evitar que os espectadores fossem incomodados.
O edifício fixou-se numa superfície simples, de tratamento decorativo Art Deco, com uma suave e curvilínea saliência superior e a tradicional pala de abrigo, térrea, em betão. Contudo, era de noite que o seu famoso lettering luminoso fazia realçar a sua arquitectura simples, mas muito elegante. A sala tinha 885 lugares divididos entre plateia, balcão e camarotes.
Em 1931, enquanto o Cine Paris era encerrado, este novo cinema instalava a aparelhagem sonora da marca R.C.A. Photophone. Alguns anos depois, esta seria substituída por outra da marca Zeiss-Ikon.








No entanto, esta sala acabou por encerrar portas no final dos anos 70, principio dos anos 80 e desde então tem vivido uma degradação total, que ninguém com poder neste país quer resolver. 
Para quando a restauração do cinema Paris? Porque não utilizar este edifício (que actualmente encontra-se emparedado, tal como o Pathé) para outras funções? 
Cada vez mais se vai acendendo a discussão em torno desta questão. Só é pena que as antigas e belíssimas salas de cinema de Lisboa estejam literalmente a desaparecer. Infelizmente, desaparecem sem deixar rasto, não criando a ponte entre a geração actual com as memórias de um passado não muito distante.

Vejam este link onde se abordam as investidas politicas  que rodeiam o atraso da recuperação desta antiga jóia arquitectónica de Lisboa: https://www.facebook.com/pages/F%C3%B3rum-Fazer-A-Pol%C3%ADtica/489391711108880















Fonte: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
Fernandes, J.M (1995) Cinemas de Portugal. Edições Inapa
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/11/paris-1931-1980.html
http://fim-de-semana-alucinante.blogspot.com/2010_07_01_archive.html
http://lisboasos.blogspot.com/2008/07/blog-post_5205.html
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINEMA+PARIS_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b

Avis: Memória de Outros Tempos




Resolvi trazer à baila mais uma memória perdida (ou não!) de uma sala de cinema que, infelizmente, já se esfumou da cidade de Lisboa.

AVIS situava-se na Avenida Duque D'Ávila, sendo que, actualmente, não existe qualquer vestígio de que um dia existiu ali um simpático cinema, que até atraia público muito provavelmente por culpa da fábrica de gelados que ficava por trás.
A origem desta sala remonta à compra do terreno na Avª .Duque d'Ávila, 45 a 45-A feita por Augusto de Ornelas Bruges, frente à antiga estação dos eléctricos do Arco do Cego e, aí, construiu-se o cinema a que deu o nome de Trianon, inaugurado em 1 de Janeiro de 1930. Gozava de exclusividade, pois não havia outra sala nas imediações das "Avenidas Novas".



Era um espaço constituído por 500 lugares, sem grande luxo mas confortável. A disposição da sala limitava-se a uma plateia, dividida em duas categorias de lugares, para além de uma série de frisas dispostas ao fundo da sala e dois balcões laterais, praticamente ao nível do pavimento e não colocados, como é hábito, num plano superior.
Na decoração da sala destacava-se a cor azul, pontuada pelo dourado e a arrumação da sala ficava a cargo de mulheres. Existia também uma orquestra composta por nove elementos e conduzida pelo maestro Carlos Sá, que comentava musicalmente os filmes mudos, actuando também nos intervalos.



A dois anos depois da inauguração, os proprietários deste espaço resolveram fazer alterações importantes no seu interior, nomeadamente a construção de um largo balcão, disposto frontal e lateralmente, como na substituição dos primitivos balcões situados ao nível do pavimento da plateia, por dois grupos de frisas, de um e de outro lado dessa plateia, ao mesmo tempo que toda a decoração foi alterada, tal como a disposição da iluminação da sala e o próprio tecto. A nova decoração da sala assemelhava-se à do Cinema Tivoli, muito por culpa da intervenção feita pelo Arqt.º Raul Lino (autor do projecto do Tivoli) que introduziu uma coerência interna e uma correspondência certa entre os seus elementos decorativos, visíveis nos modernos lustres que pendiam do tecto e na utilização de luz indirecta. A designação também seria alterada para o mais lusitano Cinema Palácio, sendo explorado por Vicente Alcântara, o mesmo empresário do Odéon.




No entanto, esta nova inauguração sofreu alguns percalços, ficando "presa" durante 17 dias. Considerava-se como a "sala mais bonita e mais aquecida de Lisboa", passando a assumir uma programação clássica de reprise.













Em 1956 este cinema, sob a gerência da Soprocine - Sociedade Proprietária de Cinemas, Lda,  sofre uma remodelação profunda na estrutura da sala com a substituição das cadeiras do balcão e da plateia, como também o desaparecimento das frisas laterais substituídas por lugares de plateia, ao mesmo tempo que eram introduzidas modificações em todo o espaço, da autoria do Arq.º Maurício de Vasconcelos, tendo como construtor Antero Ferreira. Neste projecto, a plateia ganhou expressão e dimensão devido à anulação das frisas e do balcão lateral, articulando-se a sala aos novos estados de espírito do pós-guerra e ao novo sentidos que estes edifícios adoptava. Ao mesmo tempo, o seu exterior dispensava a clássica fachada, tentando coabitar com outros comércios e atraindo espectadores. 
Assim, em 29 de Novembro desse ano, este renovado espaço reabriu ao público, mas desta vez com o novo nome de AVIS. O filme inaugural foi a comédia musical "Fogo de Artificio", interpretada por Romy Schneider, que conquistou em absoluto o agrado de todos os espectadores.











 Após ter exibido filmes de estreia e enormes sucessos de bilheteira, como "Trinitá - O cowboy insolente", que estreou em Maio de 1972 e esteve em exibição até Março de 1973, e secundado pelos primeiros melodramas indianos chegados a Portugal após 1974. Também transmitiu filmes pornográficos, fechando definitivamente em 1988. O seu edifício foi demolido e deu lugar a outros habitacionais.



Actualmente, nada resta de um cinema que num passado não muito remoto teve o nome de AVIS.


Fontes: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2014/06/cinema-avis.html
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2015/03/cinema-palacio.html
Blogue "Dias que Voam"
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINEMA+AVIS_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b

Imperial vs. Pathé


Lisboa teve (e ainda tem!) salas de cinemas que começaram por ter uma designação e depois ganharam outra ao longo dos anos.
Na primeira metade dos anos 20 surgiu um novo cinema no Bairro de Arroios (Rua Francisco Sanchez, nº 154) de seu nome Pathé Cinema, passando a servir um amplo núcleo populacional, que viria a frequentá-lo com uma considerável frequência. Este espaço era composto por 737 lugares, distribuídos por 132 nos balcões; 69 fauteils; 504 cadeiras na plateia e 8 camarotes de 4 entradas cada. O número elevado de cadeiras indicava as características populares da sua frequência habitual.
Em 1931 a empresa que geria este cinema resolveu fazer obras de beneficiação, nomeadamente na estrutura da sala, como também uma modernização dos equipamentos e instalação de um sistema sonoro. Todas estas modificações obedeciam às exigências com a segurança e conforto dos espectadores explanadas no Regulamento dos Teatros, publicado em 1927, como também no Decreto-Lei que cria, posteriormente, a Inspecção-Geral dos Espectáculos. A partir de então, foram exigidas licenças de funcionamento após a aprovação dos projectos e das vistorias respectivas. Tornou-se obrigatório o registo prévio do exercício da actividade e impôs-se a existência de uma autorização, sob a forma de visto, para a realização de cada espectáculo. As modificações eram visíveis através do maior espaçamento entre as cadeiras; da introdução de coxias laterais; da largura estipulada para as escadas de acesso e das medidas que deveriam ser tomadas relativamente à iluminação suplementar e bocas-de-incêndio. A partir daí a sala passou a chamar-se Imperial Cinema, nome que recebeu logo de início uma aceitação muito maior por parte dos seus frequentadores. 
Em 1956 este cinema voltava a sofrer alterações, sob o risco do Arqt.º Fernando Silva (autor do projecto do Cinema São Jorge), nomeadamente na planta da sala que ficaria mais reduzida, perfazendo no total 576 lugares distribuídos por 135 nos balcões; 417 lugares na plateia e 6 camarotes de 4 entradas cada, oferecendo assim uma maior comodidade aos seus espectadores. Com o surgimento das grandes salas, o Imperial tinha forçosamente que se modernizar, mas mesmo assim foi conquistando um publico fiel até que, na década de 70, foi tomada a decisão de demolir o edifício e construir outro novo e modernizado no seu lugar.





Este cinema iria passar por uma radical remodelação que faria renascer um novo cinema, que iria recuperar a designação original de Pathé em 1973,  deixando de ser uma sala de reprise para passar a cinema de estreia, acompanhando outras salas de cinema mais prestigiadas. Nos anos 80, começou a perder publico progressivamente para encerrar as portas em 1987. No inicio dos anos 90 funcionou como discoteca que mais tarde acabaria por fechar.




O Pathé, como muitas outras salas em Lisboa, não resistiu à marcha do tempo e encontra-se actualmente entijolado e abandonado em Arroios, servindo de abrigo aos sem-abrigos. Embora o edifício encontre-se erigido, já está completamente descaracterizado e sem qualquer tipo de estética.



Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://xinho-omeublogue.blogspot.com/2009/01/bilhetes-de-cinema.html

Lys vs Roxy

Hoje escrevo-vos sobre uma sala de cinema que ficava situada na Avenida Almirante Reis, nº 20 e que, como tantas outras, já desapareceu. Estou a falar-vos do Cinema Roxy, reencarnação do antigo Cinema Lys.


Construído num local estratégico, onde convergiam diversos bairros vizinhos e populosos como a Graça, os Anjos e Almirante Reis, este cinema teve a sua inauguração a 11 de Dezembro de 1930 e o seu dono era o Dr. Abraão de Carvalho (homem de diversos haveres e então funcionário superior do Ministério dos Negócios Estrangeiros),  sendo o espaço gerido por Aníbal Contreiras (homem ligado aos negócios cinematográficos no seus variados sectores e fundador da Lisboa Filme).
O projecto datado de 1929 da autoria do Eng.º Machado Rodrigues, mostrava um edifício em forma  de um navio com os dois corpos laterais paralelos às ruas, terminando numa proa onde as fachadas laterais convergiam devido a um corpo circular que as animava. O seu interior era constituído por um balcão que se prolongava até ao palco e não existiam corredores e outras dependências de teatro que pudessem dificultar a evacuação do recinto através das várias portas que conduziam à rua. Apesar de obedecer às normas de segurança exigidas pela Câmara Municipal, este projecto foi vetado pela mesma devido à simplificação de todo o edifício, com a fachada e suas ornamentações a não corresponderem à importância do lugar onde seria edificado.
Para refutar essas objecções, foi contratado o Arq.º Tertuliano Marques (responsável pelo projecto do Chiado Terrasse) que teve como tarefa redesenhar a fachada do cinema, que passa a ser dotada de uma maior carga decorativa. O projecto foi entregue à apreciação da autarquia, sendo aprovado sem hesitação. No entanto, com as obras em avançado estado de construção, o promotor voltou a pedir uma nova autorização para alterar a fachada, propondo um desenho de tal modo simplificado que se aproximava do projecto original que tinha sido rejeitado. A autarquia, apesar da opinião divergente, acabou por autorizar a alteração da fachada, que acabou por ficar com um aspecto algo inacabado.
Apesar de toda a turbulência inicial, este cinema caracterizou-se por uma afluência nunca antes vista, quer pela sua dimensão, quer por ser um cinema de “reprise”, para onde eram levados os maiores êxitos, imediatamente após a sua estreia, tudo graças a uma gerência dinâmica.













Quando abriu transmitiu filmes como: O Dominó Preto, uma comédia alemã da UFA, interpretada por Harry Liedke, o drama Águas de Tormenta, a farsa Caixeiro Viajante, o filme animado português Os Camelos e um documentário nacional.
Em 1931 Joaquim Pedro dos Santos (funcionário da administração do jornal O Século) passa a gerir este espaço, conseguindo fazer do Lys um cinema concorrido e com um público fiel.



Como tantos outros cinemas, também este espaço passou por importantes obras interiores, passando para cinema de estreia e adoptando o nome de Cinema Roxy.
Esta nova fase teve a sua inauguração a 26 de Junho de 1973 com o filme Alfredo, Alfredo, de Pietro Germi, com uma lotação total de 553 lugares (plateia - 331; balcão - 222) e tinha 3 matinés e uma sessão nocturna.



Pedro Emauz Silva foi o arquitecto-decorador encarregado das remodelações, mas o Roxy nunca atingiu a popularidade do anterior Lys.
Ao longo dos anos, a sua programação foi decaindo, tendo encerrado as suas portas no início de Abril de 1988, com o filme Noite Infernal.
Como tantas outras salas que apareceram por Lisboa, esta é mais uma que fica na memória dos lisboetas mas que não sobreviveu à modernice actual. Actualmente, é um edifício que alberga escritórios e uma sapataria.





Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/06/cinema-lys.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2010/02/lys-1930-1988.html
 
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