Cinema Império: outro "gigante" lisboeta



A década de 1950 foi um período de importantes transformações no país. Assistiu-se a um forte surto industrial, resultando numa migração para a região de Lisboa de pessoas, que se fixaram na periferia da cidade. Desenvolveram-se áreas suburbanas como Barreiro, Almada e Amadora.
A localização dos novos cinemas, na Avenida da Liberdade,Saldanha, Alameda, Avenida de Roma e Alvalade, escolhe as vias mais importantes e prestigiantes da cidade, rompendo com a localização até então predominante.
Até esta década, os cinemas de nível mais elevado localizavam-se no centro da cidade (Baixa-Chiado e imediações), enquanto que os outros de nível mais fraco espalhavam-se pelos bairros. Contudo, os cinemas construídos nesta década já não se concentram no centro e definem uma nova zona, que ocupa uma malha bastante regular.
É a época da construção de enormes edifícios de espectáculos, como o Monumental, Império, São Jorge, Alvalade e Roma. Estas salas grandiosas traduziam um novo tipo de interesse pelo espectáculo cinematográfico, que atraía o espectador a frequentar os grandes cinemas de estreia, para além dos cinemas de bairro.
É nesta época que aparece o Cinemascope e, posteriormente, o Supertecnirama de 70mm, um tipo de projecção só possível em cinemas de grandes ecrãs, e que seria o suporte fundamental para as grandes produções cinematográficas, como o Ben-Hur, Spartacus e Cleópatra, etc.
As inovações técnicas e o incremento da acessibilidade, devido ao alargamento da rede de transportes, permitiam que os lisboetas pudessem frequentar com regularidade os grandes cinemas, sem que isso prejudicasse os cinemas de bairro, utilizadas com mais frequência. Estes ficavam mais perto de casa e ofereciam um programa duplo a um preço mais barato, que também era aliciante para os espectadores. O cinema tinha se tornado num hábito para os habitantes da cidade e era um divertimento barato.


Em Maio de 1952, seria inaugurado o Cinema Império, localizado na Alameda D. Afonso Henriques, que contou com as presenças de diversas individualidades importantes da altura.



O responsável pela projecção deste cinema foi o Arqt.º Cassiano Branco, que se baseia na arquitectura modernista e estrutura-se através de uma planta rectangular, de bloco único, cujo alçado principal, virado para norte, é definido por uma ampla estrutura envidraçada. A decoração da fachada apresenta linhas verticais coroadas por esferas armilares, em ferro forjado. 


O interior é composto por corredores de passagem que ligam três pisos e a sala de espectáculos.
Este espaço possuía plateia, 1º e 2º balcões, totalizando 1676 lugares, sendo suplantado somente pelo Cine-Teatro Monumental e o Cinema São Jorge.
O painel que representava Lisboa, colocado no foyer do 1º balcão, e as cerâmicas que compunham a decoração eram da autoria de João Fragoso.



























Em 1958, realizou-se neste cinema o 1º Festival da Canção em Portugal, como também posteriormente ocorreram espectáculos musicais com Cliff Richards e os The Shadows, Count Basie e Quincy Jones, etc.
Entre 1961 e 1965 este cinema funcionou como teatro, com a actuação da companhia "Teatro Moderno de Lisboa".





No final da década de 1950, o Governo autoriza a construção de salas em edifícios de habitação e de comércio, adaptando-se espaços livres dentro de outros recintos. Recuperam-se caves e sub-caves ou aproveitam anexos e garagens. As grandes salas de cinema são retalhadas interiormente, para originar outras salas. Foi assim que o Estúdio, pertencente ao Império, foi idealizado por Frederico George em 1960. Esta sala, desenhada no topo deste edifício e que se envolvia na galeria de circulação que acompanhava toda a superfície envidraçada da fachada, apresentou-se como uma proposta ambiciosa. Foi inaugurada em Outubro de 1964, constituída por 250 lugares confortáveis e por uma excelente aparelhagem de projecção. Na sua inauguração foi apresentado o filme Os Chapéus-de-chuva de Cherburgo, que tinha ganho a Palma de Ouro do Festival de Cannes e que contava com a interpretação de Catherine Deneuve. Na altura, esta sala foi elogiada porque conjugava uma boa programação com o conforto e requinte, características pouco usuais nos cinemas da cidade.



O povo lisboeta acorreu em catadupa a este espaço, o que contribuiu para que este modelo de construção se expandisse para outros cinemas, como por exemplo o Satélite, que se alojou no Cine-Teatro Monumental.
O inicio da década de 1980 e a proliferação de salas de cinema em centros comerciais trouxeram  a crise às grandes salas, entre as quais o Império, que viria a encerrar em 1983, embora fosse o local de ante-estreias e de festivais de cinema até ao inicio da década de 1990. 


Infelizmente, e sem surpresa alguma, este edifício foi comprado pela IURD em 1992, que aí estabeleceu a sua sede e local de culto em Lisboa. Em 1996, este edifício foi classificado como imóvel de interesse público pelo IGESPAR.



Este cinema também possuía um café-restaurante, no alçado da Av.ª Almirante Reis, designado de Café Império, cujo projecto de arquitectura foi da responsabilidade de Raul Chorão Ramalho, com dois pisos inaugurados em 1955. Durante as décadas de 50 e 60 do séc. XX, actuaram neste espaço artistas como Madalena Iglésias, António Calvário e Artur Garcia. Actualmente, para além da pastelaria, este Café Império oferece espectáculo de música ao vivo com artistas convidados. 






Fonte: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio,
SALGUEIRO, Teresa B., Documentos para o Ensino – Dos Animatógrafos ao Cinebolso, 89 anos de cinema em Lisboa, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, Finisterra, XX, 1985
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2012/10/cinema-imperio.html
http://citizengrave.blogspot.pt/2012/08/cinemas-onde-vi-filmes-cinema-imperio.html

1 comentários:

José Vicente disse...

Artigo interessante sobre este grande cinema de Lisboa e o seu triste final.

 
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