Londres: O último cinema resistente em Lisboa





O Cinema Londres, situado na Avenida de Roma, nasceu das cinzas de uma boate chamada "Tropical", onde a banda rock "Sheiks" tocaram pela última vez ao vivo em 1967. Nesse mesmo espaço existia uma pista de automóveis de seu nome "Bólide". A empresa que era a proprietária do edifício, Dias & Antunes, resolveu aproveitar o espaço da cave e instalar um cinema. O projecto da autoria do Arqt.º Eduardo Goulart Monteiro (responsável pelo projecto da Pastelaria Mexicana na mesma zona), previa uma sala com 440 lugares, ao qual se se anexava um snack-bar e um pub, imprimindo assim ao espaço um certo luxo.



Esta sala foi inaugurada em 1972 com o filme Morrer de Amar de André Cayatte e acabou por se tornar num espaço dedicado à exibição de filmes de autor como Tristana de Luís Buñuel, Medea de Pier Paolo Pasolini, Baile de Bombeiros de Milos Forman ou Tirez sur le pianiste de François Truffaut. A imprensa da época proferiu que este espaço era uma nova ideia numa cidade que crescia e que oferecia diversos serviços num só lugar: ver cinema na sala, jantar no snack-bar e conversar no Pub The Flag. E assim efectivou-se a proposta que os "estúdios" poderiam conferir uma ambiente propicio para os espectadores manterem-se no local depois das sessões cinematográficas.









Na década de 1980 do Séc. XX, a programação desta sala deixa de ser tão selectiva e começa a ser mais comercial com a exibição de filmes como Classe, Experiência em Filadélfia e Crocodilo Dundee. Aos poucos, este espaço começou a perder a sua identidade, como também a exclusividade dos filmes devido ao aparecimento de outras salas inseridas em centros comerciais, o que contribuiu para a divisão do público. Para fazer frente às novas salas que iam aparecendo, o Londres fechou para obras e reabriu com duas salas, mas a sua programação nunca mais foi a mesma, afastando assim o seu público fiel.
Actualmente esta sala encontra-se dividida em duas...uma de 219 lugares e outra de 114 lugares, de modo a adaptar-se aos tempos modernos e em busca de maiores receitas. Apesar de tudo, tem resistido ao tempo e conseguiu adaptar-se às mudanças e aos gostos dos espectadores, continuando a ser um cinema de referência para quem gosta mesmo de salas de cinema e não de centros comerciais. Este cinema é também conhecido pelas suas fantásticas cadeiras "amestradas" que baixam consoante o peso do ocupante. O Café-Bar Magnólia com o seu ambiente e sofás acolhedores, convida a um café enquanto se espera pela hora da sessão. 
Contudo, no inicio do ano de 2013, o Londres acabou por fechar portas...devido à falta de pagamento de contas, depois de lhe ter sido cortada a electricidade. Para além desta sala, também fecharam outras salas do grupo Socorama em Cascais, Barreiro e Setúbal e todas pelo mesmo motivo.
O Grupo Socorama pediu insolvência o que obrigou ao encerramento de 47 das 106 salas de cinema que o grupo detinha em todo o país. O aspecto mais irrealista desta situação é que a electricidade foi cortada em diversas sessões de cinema, o que prova que a Socorama chegou a um ponto de ruptura devido a uma gestão ruinosa e desastrosa ao longo dos anos. E quem fica a perder? Os espectadores que vêm mais um dos últimos e resistentes cinemas de Lisboa a fechar portas de uma forma inglória.
No entanto e de acordo com o Jornal "Público", este cinema vai ser transformado numa loja de produtos chineses, apesar dos esforços da Associação "Mais Democracia" (um movimento de comerciantes da zona da Avª de Roma) que não se conforma com esta decisão, defendendo que este antigo cinema fosse convertido num pólo cultural.
Deixo-vos o link sobre esta noticia: http://www.publico.pt/local/noticia/o-historico-cinema-londres-em-lisboa-vai-ser-transformado-numa-loja-de-produtos-chineses-1618900#/0






Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
http://vamos-ao-nimas.blogspot.pt/2013/04/cinema-londres-o-fim-de-uma-epoca.html
http://guedelhudos.blogspot.com/search/label/Cinema?updated-max=2010-10-29T12%3A00%3A00%2B01%3A00&max-results=20;
http://guedelhudos.blogspot.com/2008/02/blog-post.html;
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/12/londres-1969-actualidade.html
http://expresso.sapo.pt/cinemas-encerrados-por-falta-de-pagamento-da-luz=f789521
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINEMA+LONDRES_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b
http://www.publico.pt/local/noticia/o-historico-cinema-londres-em-lisboa-vai-ser-transformado-numa-loja-de-produtos-chineses-1618900#/0

Caleidoscópio: o cinema à espera de uma nova vida



A partir da década de 1970 do Séc. XX assistiu-se, de forma natural, à integração de cinemas em centros comerciais. É inegável que o facto em si foi uma novidade porque criou a convicção de que era possível reunir num só espaço diversos serviços, como uma nova forma de viver a cidade. E esta tendência foi tão bem sucedida que assistiu-se ao aparecimento desenfreado de centros comerciais que reuniam um enorme conjunto de serviços úteis à sociedade.
No seguimento do aparecimento de espaços como Apolo 70 e o Edificio Castil, o Arqt.º Nuno San Payo (responsável pelo projecto do Cinema Quarteto) procurou adaptar o modelo num espaço existente no Jardim do Campo Grande, desenhando um pequeno complexo de lojas constituído por lojas, restaurante e um cinema inaugurado em 1974 com a designação de CaleidoscópioEste edifício foi idealizado inicialmente para ser um posto de recepção turística com salas de refeição, bar e várias lojas que se inauguraram em 1971. Contudo, pouco tempo depois, foi adaptado pelo mesmo arquitecto para ser um centro comercial, conservando-se a fachada constituída por um painel de cerâmica de Maria Emília Silva Araújo.



A sala de cinema tinha capacidade para 299 espectadores. Lauro António foi o seu primeiro director de programação. O edifício mantém-se até à actualidade inalterável no exterior, com os bonitos painéis de azulejos em relevo da fachada a destacarem-se; mas o cinema e o restaurante, bem como a maior parte das lojas, fecharam. No seu interior nasceu uma grande livraria e uma discoteca chamada "Nell's". A título de curiosidade o café do lago mantém-se aberto e continua a alugar barcos a quem quiser passar uns momentos de descontracção.



Em 2011, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, e o reitor da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, apresentaram os projectos de qualificação do Jardim do Campo Grande (zona norte) e do edifício Caleidoscópio, onde ficará sediado o novo Centro Académico. O edifício Caleidoscópio, que foi cedido pela Câmara à Universidade de Lisboa para instalação de um Centro Académico mediante um protocolo assinado pelas duas instituições, vai ser alvo de remodelação integral do seu interior, a cargo da Universidade. Como explicou Pedro Oliveira, arquitecto responsável por este projecto, o que se pretende é fazer deste edifício mais uma "porta de entrada" para o Jardim do Campo Grande em ligação com o campus universitário e um "ponto de encontro" das diversas instituições universitárias adjacentes. Assim, em parceria com a CML, a zona do envolvente do edifício será alvo de arranjo específico, com a remoção dos espaços de estacionamento fronteiros ao edifício, entre este e zona universitária, e a criação de um pátio do lado do jardim e de uma esplanada sobre o lago. Enquanto a fisionomia exterior do edifício se mantém inalterada (apenas serão removidos os elementos que foram acrescentados, restituindo a originalidade do edifício, e acoplada uma pala luminosa), o interior será objecto de profunda remodelação para instalação de salas para as associações académicas e associações ambientalistas, galeria, auditório, um grande salão, áreas de estudo, cafetaria e restaurante.
Estamos em 2013 e este espaço está a definhar a olhos vistos. Com as paredes cobertas de graffiti e a porta entreaberta que convida à destruição do seu interior, o Caleidoscópio aguarda a prometida e merecida transformação num centro académico. A sua fachada com os vidros partidos ainda ostentam os letreiros de lojas que há muito encerraram, incluindo o da discoteca Nell's (conhecida por ter sido palco da morte de dois seguranças). A última loja a fechar foi a Livraria Escolar Editora, que se mudou para a Faculdade de Ciências com a promessa de regresso ao lugar original, assim que as obras de remodelação terminarem.







O atraso nas obras, segundo o reitor da Universidade, deveu-se às dificuldades financeiras do país e da universidade. António Nóvoa explicou que estava em causa um investimento de 1,5 milhões de euros, frisando que tudo será feito com base na sustentabilidade financeira, sem investimentos públicos.
Também atrasada, mas já em fase de obra, encontra-se a recuperação da parcela norte do Jardim do Campo Grande, que inclui a criação de um parque de recreio canino e uma praça de jogos matemáticos.
A parcela sul deste jardim, entre as Avenidas do Brasil e Estados Unidos da América, onde se localiza um parque infantil e uma piscina municipal abandonada, também será alvo de uma requalificação, mas que se encontra também atrasada.



Europa: o fim inevitável


O Cinema Europa foi um dos edifícios mais emblemáticos do bairro de Campo de Ourique em Lisboa (Rua Francisco Metrass, nº 28).
Em meados de 1929, o proprietário José Dionisio Nobre resolveu construir um cinema num terreno que possuía situado na Rua Almeida e Sousa, nº 35 com a Rua Francisco Metrass. O nome original deste cinema era "Astória".
Inaugurado na década de 1930, foi projectado pelo Arqt.º Raul Martins. A primeira versão deste cinema nada tinha a ver com a que mais nos lembramos. Esta versão Art Deco tinha uma mistura de clássico e moderno que a tornava diferente dos outros cinemas, não só pelo seu tamanho como também pela imponente arquitectura da fachada e dos interiores. 
O facto deste espaço se situar numa confluência de duas ruas fez com que existisse um inteligente tratamento da sua fachada, o que contribuiu para a quebra da monotonia geral do edifício e da austeridade das suas linhas.
A sua sala, traçada em forma trapezoidal e dotada de tectos de masseira pintados em azul e prata, que contrastavam com os tons das paredes em verde mate e ouro, possuía uma boa acústica que se exigia dos espaços que aderiam ao cinema sonoro. A boa visibilidade também estava incluída no desenho do recinto, que se desenvolvia por três pisos, sendo o primeiro a plateia; o segundo correspondia ao primeiro balcão e seis camarotes de cada lado, como também o bar; e por fim, o terceiro piso que correspondia ao segundo balcão e onde se encontrava a cabine. Ao todo esta sala conseguia acomodar 878 pessoas.
Este edifício foi projectado de modo a poder ser ampliado, o que aconteceu em 1936 quando sofreu reestruturações, com risco do Arqt.º João Carlos Silva, quer na fachada como também no interior, vendo reduzida a lotação de modo a acomodar melhor o público.


 




Em 1958, este recinto foi demolido para dar lugar a uma sala maior, para coincidir com os grandes cinemas erigidos nessa década. O projecto do novo Cinema Europa foi da autoria do Arqt.º Antero Ferreira, tendo a sua fachada incluído uma escultura em alto-relevo da autoria do escultor Euclides Vaz. Em 1965 a sala seria melhorada, segundo projecto do Arqt.º Rodrigues Lima, com modificações significativas que se estenderam até ao bar, como também a importância atribuída ao átrio com um painel de azulejos de Fred Kradolfer, expressamente construído para o local.
Funcionou como sala de cinema até 1981 e integrou o Inventário da Arquitectura Moderna Portuguesa do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR, actualmente designado por IGESPAR). O Europa funcionou também durante os anos 80 como estúdio de televisão.
Contudo, só duas décadas mais tarde o espaço foi desafectado dessa função. Aconteceu em 2004, na sequência de um pedido do proprietário - Sociedade Administrativa de Cinemas, Lda - que se propunha construir no local um novo edifício, dividido entre espaços de comércio e apartamentos de luxo.




 


Na tentativa de salvar este cinema foi criado um grupo de cidadãos: SOS Cinema Europa. Foi um movimento informal de cidadãos, maioritariamente moradores no bairro de Campo de Ourique, que nasceu no início de 2005. Este movimento lutou pela criação de um espaço cultural público (biblioteca multimédia, auditório e sala para actividades diversas) no piso térreo do novo edifício a ser construído no local onde existiu o antigo cinema “Europa”.Em 2006, 25 anos depois do seu encerramento, este cinema beneficiou de um projecto de reabilitação que servia para preservar a sua função como cineteatro, destinado aos mais jovens, com uma aposta essencialmente centrada no cinema de animação e no teatro infantil. 




Contudo, foi uma aposta perdida visto que o edificio foi demolido em 2010.
Mais uma pérola da arquitectura a desaparecer ingloriamente da cidade de Lisboa, para dar lugar a mais um condominio de luxo provavelmente...mais uma vez o capitalismo em alta e a salvaguarda da arquitectura em baixa.


Fonte: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2010/01/cinema-europa-1930-1957.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/11/europa-1930s-1981.html
http://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/10/cinema-europa.html
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINEMA+EUROPA_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b
 
Copyright 2009 Cinemas do Paraíso. All rights reserved.
Free WordPress Themes Presented by EZwpthemes.
Bloggerized by Miss Dothy