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O primeiro video do canal do Youtube "Cinemas do Paraíso"


O Blogue "Cinemas do Paraíso" já tem um canal de Youtube!

Já foram publicados doís videos, em português e inglês sobre o primeiro animatógrafo a transmitir cinema em Portugal: o Real Colyseu de Lisboa.

Espero que gostem dos videos. Cliquem e comentem!





Cinebolso vs. Quinteto vs. N´Gola - cinema "hardcore" ou "eclético"?




De regresso à capital Lisboa, vou falar sobre um cinema infâme que, por pouco tempo, transformou-se num local eclético para se ver cinema. Mas por pouco tempo...

A década de 1960 trouxe a Lisboa a construção de novas salas de cinema, inseridas em edificios mistos, combinando cinema, centro comercial, escritórios e habitação, que permitia uma economia de gestão acentuada. Abria-se assim a porta para o aparecimento de diversos cinemas de "garagem", em detrimento dos tradicionais cinemas de bairro que começavam a acusar a concorrência televisiva. Para além da televisão, a diminuição de público cinematográfico deveu-se à forte emigração e a Guerra de Ultramar, bem como à fixação das populações em áreas periféricas da cidade, cada vez mais afastadas do centro e dos bairros onde se localizavam os cinemas mais antigos.
Embora fossem aparecendo mais salas de cinema, de dimensões pequenas, o número de espectadores não aumentou até 1974. Com a conquista da liberdade a 25 de Abril, o cinema viu-se livre de restrições e da censura, com a projecção integral de filmes e a descoberta de novas cinematografias de origens diversas. O interesse pelo cinema foi renovado devido à melhoria do poder de compra dos lisboetas, justificando o aumento do número de espectadores em 1975.

Neste seguimento de acontecimentos, foi inaugurado no dia 8 de Março de 1975 um pequeno cinema, localizado na Rua Actor Taborda, n.º 27 B, com a designação de Cinebolso, dentro de um pequeno centro comercial com o mesmo nome. A sua proprietária é a firma "Cinebolso - Empresa de Cinemas de Bolso, Lda".




Na altura, o sócio principal era José Gonçalves, que viria a ser sócio de Pedro Bandeira Freire na fundação do cinema Quarteto, inaugurado em Novembro do mesmo ano. No entanto, José Gonçalves iria abandonar esta sociedade para se dedicar, em exclusivo, ao Cinebolso. 



Conforme o anúncio do Diário de Lisboa da referida data, os lugares não eram marcados, excepto nas sessões da noite. Os bilhetes para cada sessão eram vendidos com trinta minutos de antecedência, com excepção das sessões da noites, cujos bilhetes poderiam ser vendidos a partir das 12:00h para o próprio dia ou seguintes. Eram exibidas comédias diariamente (12:30h) e aos sábados (10:30h e 12:30h). Aos domingos eram exibidos filmes para crianças (10:30h e 12:15h). Os filmes eram exibidos sem intervalos. Para além da sala de cinema, este espaço também continha um snack-bar.

O filme inaugural foi "A Salamandra" de Alain Tanner, pretendendo-se conjugar uma programação cuidada com o conforto que se começava a exigir neste tipo de espaços. 
Até 1976, a sua programação foi interessante, com a exibição de filmes como "Joe Hill", "Belle de Jour", entre outros. 




Contudo, a 19 de janeiro de 1976, este cinema virou-se para a exibição de filmes pornográficos com a estreia do filme "Kermesse Erótica". Filmes como "Investigações Sexuais" e "1001 Noites Eróticas" eram exibidos em detrimento de filmes mais eclécticos e comerciais. Consequência da recém liberdade conquistada.



No entanto, a 18 de fevereiro de 1982, este cinema encerrou as portas com o filme "Garotas da Garagem". Pedro Bandeira Freire, famoso proprietário do Cinema Quarteto, comprou este espaço com direito a obras. Foi rebaptizado de Quinteto, continuando com a programação criteriosa que tornara o Quarteto num caso ímpar na exibição cinematográfica lisboeta. Um dos filmes mais famosos que estrearam neste novo cinema foi o "Blade Runner" de Ridley Scott, a 25 de fevereiro de 1983.



E muitos mais filmes de grande qualidade foram exibidos neste cinema, como "O Regresso de Jedi" e "Gremlins".

Contudo, esta breve reconversão não resultou, tendo o Quinteto encerrado portas a 2 de outubro de 1985. Voltou a reabrir as portas no dia seguinte, 3 de outubro de 1985, com nova gerência e designação: N'Gola, exibindo o filme "Je Vous Salue Marie". Mas... mais uma vez, esta nova designação não iria singrar, fechando as portas a 4 de junho de 1986.
Este espaço voltava a ser o Cinebolso a partir de 17 de julho de 1986, exibindo filmes "hardcore"... até aos dias de hoje. 

Infelizmente, este cinema tornou-se num local de cruising bastante afamado, confirmado por relatos de pessoas que assistiram a encontros sexuais em plena sala de exibição. As sessões são contínuas e o bilhete é comprado numa máquina, à semelhança do que se passa nas estações de metro. Os tempos do snack-bar já lá vão e não regressam. 



Diz-se que actualmente este cinema encontra-se encerrado para férias... será um encerramento temporário ou definitivo?




Fontes:

ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012. pp
- SALGUEIRO, Teresa B. Documentos para o Ensino: Dos Animatógrafos ao Cinebolso. 89 anos de cinema em Lisboa. Finisterra, XX, 40 Lisboa, 1985. pp. 379-397
- http://restosdecoleccao.blogspot.com/2018/08/cinema-cinebolso.html
- http://ratocine.blogspot.com/2012/07/cinebolso-o-fascinio-perdido-do-cinema.html
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/Imagem.aspx?ID=2331211&Mode=M&Linha=1&Coluna=1
- http://wwwdejanito.blogspot.com/2013/08/cinemas-de-lisboa-5.html?zx=284a0ff4953cc114
- http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06822.172.27125#!6
- http://casacomum.org/cc/visualizador?pasta=06839.189.29579#!19

Odeon: uma nova habitação de luxo


Depois de uma viagem pelo Alentejo, regresso à minha capital, Lisboa. Desta vez, irei relatar a história de um cinema, outrora grandioso, mas que atualmente era um edificio em definhamento total (tal como o malfadado Paris). Estou a falar do Odeon, localizado nas traseiras do antigo cinema Condes (hoje Hard Rock Café).

As crescentes exigências relativamente à segurança e o conforto do público, aliadas aos novos requisitos técnicos que o cinema sonoro necessitava, influenciaram a modernização de antigas salas. O novo regulamento dos teatros, publicado em 1927, impôs um conjunto de regras obrigatórias que refletia a sistematização progressiva da noção de "espectáculo cinematográfico" e os novos procedimentos que as salas deveriam adoptar. A partir daqui, eram exigidas licenças de funcionamento após a aprovação dos projectos e das respectivas vistorias. Também era obrigatório o registo prévio do exercicio da actividade e a existência de uma autorização, sob a forma de "visto", para a realização de cada espectáculo.
Também começaram a existir normas específicas que levaram à alteração drástica da organização interior das salas. O imperativo do espaçamento entre cadeiras, de pelo menos 30 centrímetros; a obrigatoriedade de existir uma coxia central na plateia e nos balcões e a imposição de serem também introduzidas coxias laterais, com uma largura mínima de 70 centrímetros, para não falar da largura obrigatória para as escadas de acesso e das medidas que deveriam ser tomadas reltivamente à iluminação suplementar e bocas-de-incêndio, eram normas que iriam dificultar a continuidade da grande maioria dos recintos. Assim, estes postulados levaram à modernização das salas, bem como seriam empregues nos novos cinemas construídos de raiz.

No local exacto da Drogaria Ferreira, importante estabelecimento fundado em 1755, após o terramento que destruíu metade de Lisboa, entre a Rua dos Condes e a Rua de Santo Antão, foi edificado o Cinema Odeón, que era para se chamar Cinema Iberia.



Para a sua construção, foi constituída uma empresa denominada Parisiana Limitada, com os sócios Anastácio Fernandes, proprietário da referida drogaria, Augusto Correia de Barros, antigo dono da drogaria, mas proprietário do terreno, Dr. Eduardo Fonseca, médico oftalmologista, e o pintor Matoso da Fonseca, que seria o futuro director-gerente do cinema.
Após quatro anos de construção laboriosa, ocinema foi inaugurado a 19 de setembro de 1927. Estiveram presente no evento entidades oficiais, imprensa, elementos das relações da empresa, entre outros.



Havendo, oportunamente, firmado contrato com a Metro-Goldwyn Mayer, este cinema abriu as portas ao público dois dias depois. O filme de estreia foi "A Viúva Alegre", de Eric von Stroheim, com Mai Murray e John Gilbert, e que René Bohet, o director da orquestra privativa, sublinhou musicalmente com segurança e o brilho a que viria a habituar o público.


Até ao inicio da epóca de 1929-1930, o cinema foi gerido pela sua empresa proprietária. Contudo, uma nova empresa viria a gerir o mesmo: Salm, Levy Junior & Companhia. Esta empresa geria a Companhia Cinematográfica em Portugal, pioneira da distribuição cinematográfica no país e orientada pelo cinematografista Salomão Levy Jr. Depois da passagem de René Bohet para o Teatro São Luiz, onde seria o responsável pela sua orquestra, seria anunciado que Juan Fabre seria o novo director da orquestra do Odeón.
Em 1937, a exploração deste cinema seria detida por Vicente Alcântara que, como J. Castello Lopes e outros, iniciara a sua actividade no cinema como empregado da Companhia Cinematográfica de Portugal. Ele iria gerir este cinema durante muitos anos, como também os cinemas Palácio e Royal.
Os preços dos bilhetes eram por volta de 1930: camarotes de balcão, 20 escudos; camarotes de 1ª ordem, 20 escudos; camarotes de 1ª ordem, lado: 15 escudos; maples, 8 escudos; 1º balcão, 1ª fila, 6,50 escudos; outras filas, 6 escudos; 2º balcão, 1ª fila, 4 escudos, outras filas, 3,50 escudos.

O  autor do projecto deste cinema foi o construtor Guilherme A.Soares. A capacidade era de 691 espectadores, distribuidos pela plateia, dois balcões e camarotes, sendo um deles suspenso.






O conjunto da sala de espectáculos era formado por um tecto em forma de quilha de um navio, em madeira de "pau brasil",e que se encontra intacto até hoje, depois de anos de abandono; pelo lustre alemão de néons gigantes; pelo luxuriante palco com moldura e frontão em relevo Art Deco; pela complexa teia do palco, com o seu pano de ferro; e pela série de camarotes, galerias e balcões em andares, compondo um exemplar único, o último existente em Portugal.



Pela tela deste cinema passaram clássicos do cinema mudo e sonoro,a preto e branco ou a cores, de Fritz Lang a Tod Browning, passando por George Cukor e Frank Capra.Pelo seu palco passaram inúmeros artistas como Laura Alves, Lola Flores, Hermínia Silva, entre outros.



Até António de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho entre 1933 e 1968, tinha um camarote cativo neste cinema, até 1970.




Na década de 1960, e por uma questão estratégica de mercado, dedicou-se à projecção de filmes espanhóis e mexicanos, garantindo o seu sucesso comercial ao preencher um nicho de mercado de aficionados espectadores.
Na segunda metade da década de 1980, este cinema iria exibir filmes pornográficos, até que encerrou definitivamente em 1993.



Durante vinte e cinco anos, este cinema foi definhando por dentro e por fora, tal como o Cinema Paris. A luta pela sua preservação foi encetada por Paulo Ferrero, líder e fundador do fórum "Cidadania LX", que tem sido encansável na defesa do património lisboeta. Foi ele que iniciou o processo de classificação deste edificio no IGESPAR, entre 2005 e 2009, tendo o pedido sido revogado em 2010, acabando com o processo.














No entanto, a Câmara Municipal de Lisboa e a Direcção-Geral do Património já decidiram o futuro deste cinema, que vai ser reconvertido em restaurante e dez apartamento de luxo, com estacionamento subterrâneo robotizado, num total de 2750 metros quadrados. O projecto é promovido pela imobilária Odeon Properties, que comprara o edificio em 2016. Este projecto será da autoria do Arq.º Samuel Torres de Carvalho, conhecido pelos hóteis Memmo em Alfama e no Príncipe Real. As obras irão começar em julho, conforme previsão de Julien Dufour, um dos sócios da Odeon Properties, e com data prevista de término em 2020.



Fontes:

- RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939. Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978

ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012

- https://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/02/cinema-odeon.html

- https://observador.pt/2018/04/23/habitacao-de-luxo-e-restaurante-futuro-do-cinema-odeon-comeca-em-junho/


Imagens:
https://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/02/cinema-odeon.html

http://ruinarte.blogspot.pt/2016/10/o-cine-teatro-odeon-lisboa.html

- https://observador.pt/2018/04/23/habitacao-de-luxo-e-restaurante-futuro-do-cinema-odeon-comeca-em-junho/

ABCine vs. Hollywood - o cinema chega ao centro comercial




O tecido urbano de Lisboa foi marcado, na década de 1960, pela renovação das construções nas Avenidas Novas. Sem se poder expandir e espartilhado pelos tecidos de malhas apertadas que ocupam as colinas, o centro lisboeta migrou para norte e, depois da tentativa falhada da Avenida de Roma ser uma alternativa à Baixa, a actividade terciária orientou-se para o Marquês de Pombal, indo desembocar nas Avenidas Novas. É nesta zona que vão se centrar um número diversificado de serviços, escritórios e comércio, como também aparecerão novas salas de cinema.

Os novos edifícios diferiam dos anteriores, porque eram mistos, combinando cinema, centro comercial, escritórios e habitação, permitindo uma maior economia de gestão. O aparecimento dessas salas de cinema abriu as portas para a redução dos cinemas de bairro, que estavam a perder concorrência para a televisão. O número de espectadores também estava a diminuir por causa da forte emigração e da Guerra de Ultramar, bem como a fixação de populações em áreas periféricas que ficavam longe do centro e dos bairros onde se situavam os cinemas mais antigos.

Na década de 1970, esta situação manteve-se e foram aparecendo salas de cinema mais pequenas, enquanto que os velhos cinemas de bairro sofreram de exploração deficitária, porque eram sobredimensionados, com instalações e equipamentos antiquados, enfrentando o encerramento. 

O ABCine abriu as portas em 1977, na Praça de Alvalade, nº 6, quando foi inaugurado o Centro Comercial Alvalade, que pertenceu à primeira geração de centros comerciais da capital, sendo considerado, na época, o maior da cidade.




Foi considerado uma coqueluche da capital na década de 1970 e 1980, porque conjugava o conceito inovador de juntar cinema, lojas e restauração. O centro comercial era composto por 82 lojas que ofereciam uma variedade de serviços, tornando-se num pólo de atracção no Bairro de Alvalade. O cinema teve um público fiel durante muito tempo, apesar de estar próximo do gigante vizinho Cinema Alvalade.
Devido ao facto de estar a perder público, a administração do centro comercial decidiu criar uma segunda sala de cinema, mudando a designação para Hollywood, por forma a rentabilizar o espaço e criar uma maior oferta aos visitantes.



Com o aparecimento dos grandes centros comerciais na década de 1990, assistiu-se ao encerramento de muitas lojas e dos cinemas neste centro comercial. Apesar de tudo, este vai resistindo ao tempo e foi alvo de renovação, reabrindo novamente com 27 novas lojas e um Pingo Doce em 2013...mas sem sala de cinema, como outrora.





FONTE:

- SALGUEIRO, Teresa B. Documentos para o Ensino: Dos Animatógrafos ao Cinebolso. 89 anos de cinemas em Lisboa. Finisterra, XX, 40 Lisboa, 1985, pp. 379-397;

- http://cinemaaoscopos.blogspot.pt/2010/01/abcine-1977-1992.html;

- http://ratocine.blogspot.pt/2010/08/os-cinemas-de-lisboa_08.html;

- http://xinho-omeublogue.blogspot.pt/2008_05_01_archive.html;


 
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