Royal Cine: a "estrela d'oiro" da Graça


Depois de um passeio pelo Norte do país, regresso a Lisboa para relatar a história de um pequeno e belo cinema de bairro que, embora se mantenha de pé, há muito que deixou de ser uma sala de espectáculos.
A história do Royal Cine, situado na Rua da Graça, começa com uma encomenda. Esta resumia-se à concepção de um edifício destinado a ser um cinema que coroasse a acção do seu promotor, Agapito Serra Fernandes, um abastado comerciante da Baixa, natural da Galiza, que enriquecera na indústria alimentar, sendo proprietário do então muito conhecido restaurante "Estrela de Ouro", e que, entretanto, mandara construir um conjunto de casas para os seus empregados dentro dos limites do terreno que adquirira na zona da Graça, onde também se encontrava a sua residência, Vivenda Rosalina, que actualmente ainda se encontra edificada e recuperada.


O Bairro chamava-se "Estrela D'oiro", construído em 1908, homenageando o estabelecimento com o mesmo nome, e tinha uma definição própria que o Arqt.º Norte Júnior ajudara a configurar, numa lógica de referências que era visível no enorme painel de azulejos que se encontrava na entrada da urbanização privada e na referência à "estrela de ouro" que se estendia pelas ruas no desenho dos monogramas das calçadas.



A base de edificação era um local ocupado por três grandes barracões então existentes na Rua da Graça, nº 98 a 108, sendo que a planta e a responsabilidade da obra foi confiada ao Arqt.º Manuel Joaquim Norte Júnior. Solicitada a respectiva aprovação às autoridades competentes no final de 1928, as obras têm inicio em 1929, embora com dificuldades devido à enorme espessura das paredes mestras dos referidos barracões, que tiveram de ser demolidos completamente. Só em Dezembro do mesmo ano é que esta obra foi concluída.






A fachada deste edifício sustenta-se em duas colunas jónicas que suportam um frontão, onde figuravam as máscaras tradicionais do teatro- a "tragédia" e a "comédia" e que definia este espaço como um local de teatro. A sala era virada para esses termos, dotando-se de uma plateia, balcão e camarotes,que eram servidos por enormes corredores de acesso e pelo aproveitamento de vãos espaçosos destinados a maquinaria de palco. Conseguia acomodar 900 espectadores, distribuídos pela camarotes da frente, com 6 lugares cada um, outra de lado, com 5 lugares. A plateia possuía três coxias, sendo uma central e duas laterais. Também havia um amplo vestíbulo que dava acesso à plateia, da qual partiam duas escadarias laterais que conduziam a um segundo pavimento, onde se encontrava uma enorme sala de baile e o bar. Contudo, a concepção do amplo átrio do edifício, enfeitado com um enorme relógio, onde despontam as duas escadarias laterais que conduzem directamente ao balcão e as decorações da sala, da autoria do pintor Benvindo Ceia, revelam o enobrecimento que caracterizava o teatro.






Mas este edifício era, sobretudo, visto como a marcação de um território, que poderia ser visto na "estrela de ouro", que encimava a fachada.
Abriu as portas em Dezembro de 1929 como cinema de estreia e o seu director-gerente, Aníbal Contreiras, convidou a Imprensa para a inauguração, que teceu rasgados elogios ao edifício, sublinhando o estilo moderno do seu buffet e a comodidade da sala, conseguida pelo espaço existente entre as cadeiras da plateia, sendo considerado um verdadeiro luxo para um cinema de bairro.
Este espaço estabeleceu a quinta-feira como o seu dia de estreia, apresentando a particularidade da realização, todas as quartas-feiras, de matinés dançantes, por convite. A orquestra privativa era dirigida pelo professor Francisco Benetó.
O filme de estreia foi "O Cadáver Vivo", co-produção russo-alemã, dirigido por Fedor Ozep e tendo como protagonista Pudovkine, um dos grandes vultos do cinema russo.


Este cinema estaria ligado à introdução do fonocinema em Portugal. Com efeito, a 5 de Abril de 1930, reproduziria as imagens, através da aparelhagem "Western Electric", sincronizadas com os sons do filme "Sombras Brancas nos Mares do Sul", realizado por W.S. Van Dyke e tendo como intérpretes Raquel Torres e Monte Blue. Este acontecimento contou com a presença do então Presidente da República e outras entidades oficiais, e que influenciou a forma de se ver estes espectáculo e nas alterações que passaram a ser implícitas na modernização das salas.



No seu primeiro ano de actividade, o Royal Cine estreou diversos documentários portugueses e mudos, tal como "Porto de Lisboa", "Arredores de Lamego", "Arredores de Sintra", etc.








Contudo, como aparecimento de outras salas maiores e melhor localizadas, como o Cinema Éden, o Royal Cine acabou por ser relegado para um estatuto de reprise. Acabou por encerrar as portas em Março de 1976 com o filme "Voluntários à Força".

Actualmente, este edifício desempenha funções de supermercado, embora reste do passado a fachada e o átrio da entrada, devidamente restaurados, que conservam a sua traça original.







Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio,
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/search?q=royal+cine
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=7736

Cinemas do Paraíso: Guimarães II



Continuando pela região do Norte, sigo para a cidade de Guimarães, berço da nação portuguesa, terra de D. Afonso Henriques, para falar de um espaço que foi recuperado recentemente: Teatro Jordão (sugestão do nosso visitante Paulo Oliveira).

Por volta da década de 1930, discutia-se intensamente a necessidade de Guimarães ser dotada de um teatro condigno. Por essa altura, o velho teatro D. Afonso Henriques encontrava-se encerrados há anos (tendo sido publicado um decreto em 1933, que autorizava a sua demolição, de modo a que fosse aberta uma rua de ligação entre a Rua de S. Dâmaso e o Largo da República do Brasil), e o Teatro Gil Vicente não reunia as condições necessárias, visto que era considerado indecente e nauseabundo.
A 18 de Fevereiro de 1936, a Câmara Municipal de Guimarães reuniu em sessão extraordinária para se decidir sobre a construção de um novo teatro. A ideia seria reconstruir o teatro D. Afonso Henriques, que ainda não tinha sido demolido. No entanto, dessa reunião, não saiu qualquer solução para o problema, uma vez que começaram a circular rumores de que a reconstrução do referido teatro estava encravada.


Nesse ano, o empresário Bernardino Jordão estava a trabalhar na construção de um novo teatro e, após alguma controvérsia sobre a sua localização,este começaria a ser edificado em Fevereiro de 1937, na Avenida Cândido dos Reis (actual Avenida D. Afonso Henriques), perante as manifestações efusivas da população. O responsável pelo projecto e direção de obra seria o Arqt.º Júlio José de Brito (responsável pelo projecto do Teatro Rivoli, no Porto).
A inauguração deste espaço ocorreu em Novembro de 1938. Tinha a capacidade para acomodar 1200 espectadores. O programa da sua inauguração incluiu um "Serão Vicentino", pelo Teatro Nacional Almeida Garrett, com a representação do Monólogo do Vaqueiro, do Auto Pastoril Português e Auto Mofina Mendes. Do elenco faziam parte Amélia Rey Colaço, João Villaret, etc. O espectáculo contou com a participação da Orquestra Ibéria.



Esta inauguração ficou na memória da cidade. Contudo, por imposição politica conhecida somente antes da abertura da sala, não se pôde designar de Teatro Jordão, com o argumento de que apenas aceitaria que o teatro tivesse como patrono uma figura de relevo nacional, tendo a empresa decidido por designá-lo de Teatro Martins Sarmento.
Tendo Bernardino Jordão falecido em 1940, ganhou mais força a insistência de que fosse atribuído o seu nome ao teatro, conforme sua vontade. Nesse mesmo ano, por despacho do Ministro da Educação, foi finalmente consagrada a designação "Teatro Jordão".
A primeira sessão de cinema no Teatro Jordão, então com a designação de Teatro Martins Sarmento, aconteceu no dia 24 de Novembro de 1938, com o filme Vou ser Raptada. 
A segunda sessão teve lugar no dia 27, tendo sido passado o filme Uma Pequena Feliz, com a actriz Jean Arthur.
A tabela de preços dos ingressos era, à altura, a seguinte: Frisas e camarotes, 20$00; Balcões, 1.ª e 2.ª fila, 4$00; Balcões, 3$50; Plateia A a V, 3$00; Plateia 1 a 8, 2$00.


Foi o principal espaço cultural da cidade durante décadas, tendo sido palco de alguns comícios conturbados após o 25 de Abril,mas fechou as portas em 1993.








Em Outubro de 2014, a Câmara Municipal de Guimarães principiou a obra de construção de seis salas de ensaio para bandas de garagem neste teatro.
Os estúdios terão o pavimento revestido a alcatifa acústica, com tratamento anti-fogo, em cor cinza, e as paredes e teto têm dois níveis: um primeiro, de contacto directo, em chapa de aço galvanizado cinza (textura e densidade diferente entre os tectos e as paredes) e um segundo plano, recuado, ora em placas de gesso cartonado (paredes) ou em tecto falso acústico.A chapa de aço distendido das paredes constituirá de suporte às mais variadas solicitações acústicas e funcionais das salas, servindo de suporte, por exemplo, a painéis acústicos, de tipos variados, a mesas para colocação de mesa de mistura e outros equipamentos áudio. Esta solução permitirá uma utilização absolutamente livre dos paramentos, garantindo o mínimo de solicitações de perfurações nos paramentos e tectos, uma vez que a estes é exigida a função de insonorizar o mais possível estes espaços. Pretende-se que os diversos estúdios possam funcionar em simultâneo sem que haja passagem de ruído quer entre salas, quer com o restante edifício, permitindo uma utilização absolutamente autónoma do restante edifício. A conclusão da obra permite, também, findar a degradação do Teatro Jordão, iniciando o seu ciclo de recuperação urbanística e funcional.




Fonte:
http://araduca.blogspot.pt/2010_12_01_archive.html
http://araduca.blogspot.pt/2010/12/para-historia-do-teatro-jordao-1.html
http://araduca.blogspot.pt/2010/12/para-historia-do-teatro-jordao-3.html
http://www.ocio.oof.pt/guia-gmr/lugares-gmr/joao-e-jordao-numa-manha-improvavel/
http://www.publico.pt/local/noticia/camara-de-guimaraes-negoceia-compra-do-historico-teatro-jordao-1428774
http://www.cm-guimaraes.pt/frontoffice/pages/100?news_id=1510
http://www.gmrtv.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=21630%3Ateatro-jordao-salas-para-bandas-de-garagem-comecam-a-ser-construidas-esta-5o-feira&catid=3%3Aflash&Itemid=2

Cinemas do Paraiso: Braga

Depois do desafio lançado a todos os visitantes deste blogue, sugerindo cinemas espalhados por esse país fora, detenho-me no Norte e fico-me por Braga (sugestão do DVDManiaco Pedro Kerouac), para falar de um antigo espaço de espectáculos que vai definhando no centro da cidade, o Cinema São Geraldo.



Este espaço, localizado no Largo Carlos Amarante, é propriedade da Arquidiocese de Braga e foi uma das primeiras salas de cinema a aparecer na cidade, como também a nível nacional.
O cinema São Geraldo foi ao longo de décadas a sala de cinema dos bracarenses e, actualmente, encontra-se fechada, com todas as janelas e portas emparedadas, e sem possibilidade de uma provável reabertura. Hoje em dia os espaços a funcionar na cidade são os cinemas Cinemax e Lusomundo com sete de salas de projecção cada. Existe também o cinema GoldCenter, mas possui apenas uma sala. A Câmara Municipal de Braga tem também uma rede de videotecas onde os cidadãos podem ver filmes gratuitamente.






A história deste cinema começa em 1917 com a construção do Salão Recreativo Bracarense, por uma sociedade anónima, e que se destinava  espectáculos teatrais e cinematográficos. A sala dispunha de plateia, frisas, galerias e, no 1º andar, camarotes,com uma lotação total de 760 lugares.



No entanto, uma vistoria feita em 1933 entendeu que este edificio não apresentava condições de funcionamento, devido à deformação observada nas colunas de madeira que apoiavam os camarotes e o telhado. As mesmas foram reforçadas com vigas de ferro, permitindo obter novamente condições de funcionamento. Em 1935, a cabine de projecção e enrolamento para cinema foi construída. Em 1940, esta sala realizava tanto espectáculos teatrais como cinematográficos.

Em 1948, foi apresentado o projecto de adaptação a cinema, dando lugar ao São Geraldo, inaugurado a 1 de junho de 1950. O palco e várias estruturas de apoio foram mantidos, por forma a que fossem realizados inúmeros espectáculos.





Este cinema foi explorado pela empresa Victoria Cine, Lda. até 1991. Entre 1984 e 1985, foi construído o edificiodo Pé Alado, que veio cupar a rua particular que servia este edificio, eliminando os camarins e arrumos de apoio ao palco (lado sul). 
Entre 1994 e 1995, o cinema voltou a funcionar temporariamente após o incêndio dos cinemas Avenida. Um dos últimos filmes exibidos neste cinema foi Pulp Fiction. A partir daí, esta sala de espectáculos teve uma utilização muito esporádica (https://sgeraldocultural.org/category/historia/).

Para mais informações sobre esta sala, aconselha-se a visita a este site: https://sgeraldocultural.org/, onde o grupo São Geraldo Cultural pretende encontrar alternativas à eminente demolição deste edificio, para além de recolher o máximo de elementos da história e ajudar a encontrar soluções de futuro que projectem Braga como uma cidade bimilenar que reconhece e sabe reforçar os valores patrimoniais, materiais e simbólicos que a definem.


Em 2014, em declaração à BragaTv, Ricardo Rio, presidente da Câmara Municipal de Braga, afirmou que: "É com enorme mágoa que temos que assumir que a reabilitação do São Geraldo é um projecto bastante mais exigente do que imaginávamos à partida, por via da degradação que o edifício sofreu e do investimento que será necessário para o seu reaproveitamento. Claro que a Câmara de Braga gostaria muito de ver o São Geraldo reabilitado. Esta é uma sala que está na memória de todos os Bracarenses, mas numa óptica de investimento municipal não estamos certos de que o novo quadro comunitário possa viabilizar as intervenções necessárias. Por isso mesmo, a Câmara não pode avançar para a aquisição do edifício sem ter garantias de financiamento para uma intervenção futura".

No entanto, e de acordo com informação prestada pelo grupo São Geraldo Cultural, na pessoa de Luís Tarroso Gomes, a Câmara Municipal de Braga resolveu voltar atrás na sua decisão de demolir este edificio e, em Julho, permitiu que o mesmo fosse arrendado, o que é uma excelente noticia!


Fonte:
http://oblogdos5pes.blogspot.pt/2007/10/porque-no-no-s-geraldo.html
http://geodevolutas.org/devolutas/cinema-sao-geraldo
http://www.bragatv.pt/artigo/1816
https://sgeraldocultural.org/category/historia/
 
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