High Life vs Batalha e Sala Bébe: um triplete de cinema


No Verão de 1906, os portuenses assistiram à primeira sessão de cinema de que há memória na cidade, em termos de espectáculo aberto ao público. Não foi essa a primeira vez que no Porto se projectaram filmes, mas os espectáculos de 1906 marcam, com certeza, o início da longa história portuense da exibição cinematográfica.
O espectáculo aconteceu na Feira de S. Miguel, no campo onde depois nasceu a actual Rotunda da Boavista, que fotografias da época mostram como sendo um espaço aberto com árvores dispersas e uma fila delas, mais alinhadas, anunciando já o que seria depois a avenida em direcção ao Castelo do Queijo.
O cinema era um espectáculo de feira, de características populares, não obstante a sedução que, desde logo, produziu em todas as camadas sociais. A primeira «sala» da Rotunda não passava de um barracão de madeira e zinco com o nome pomposo de Salão High-Life, o suficiente para o animatógrafo dar os primeiros passos junto dos portuenses.
Os responsáveis pelos históricos acontecimentos fílmicos da Feira de S. Miguel foram António Neves e Edmond Pascaud, dois nomes que viriam depois a marcar, até aos nossos dias, de forma incisiva, toda a caminhada da exibição cinematográfica no Porto, ao mesmo tempo que se afirmavam na divulgação do cinema como espectáculo, divertimento e veiculo de cultura.
Trata-se da Empresa Neves e Pascaud (cinemas Batalha, Trindade e, já nos nossos dias, a Sala Bebé), de que foi timoneiro, durante décadas, um dos nomes de ouro da difusão do cinema em Portugal, o Dr. Luís Neves Real.
Que filmes se viam no barracão da Feira de S. Miguel em 1906? Eram «quadros» e «vistas, iguais aos que então corriam mundo, projectados por uma «Pathé», como se sabe a máquina pioneira no ofício. Cenas captadas sabe-se lá onde mostravam-se em sessões continuas, das duas da tarde até perto da meia-noite. A novidade fez as delícias dos portuenses. Seguiam-se-lhe, como tribuna de honra, sobre estrado de madeira, as filas de cadeiras a marcar uma distinção e a preservar apropriado acolhimento à "High-Life" com o Porto que, não desdenhou acorrer a extasiar-se perante as "maravilhosas vistas" que a firma Neves  e Pascaud lhe oferecia à razão de 130 réis por pessoa e por sessão. O Salão High-Life com sua cobertura de zinco esteve pouco tempo no descampado da Boavista: dois meses apenas. Transferiu-se logo para o Jardim da Cordoaria, que assim averba no seu historial a honra de ter acolhido a «sala» pioneira da exibição cinematográfica no Porto.




O Salão High-Life esteve na Cordoaria durante  dois anos: em 29 de Fevereiro de 1908 assentou arraiais na Praça da Batalha, juntando mais uma palavra — «Novo» — ao seu já prestigiado nome.
Tratava-se, no entanto, agora, de um «pitoresco edifício» que em 1913 tomará o nome definitivo de Cinema Batalha. O Novo Salão High-Life, apesar de se ir tornando obsoleto, não perderá a sua capacidade de atrair o público a um espectáculo cada vez mais popular. Nessa época, a cidade do Porto assistiu ao aparecimento de novas salas dedicadas à arte do cinema (Cine Foz, Cinema Éden, Salão Trindade, Salão Jardim Passos Manuel, Olympia, etc.), como também assistiu à passagem de cinema em vários espaços teatrais (Águia D'Ouro, Rivoli, Carlos Alberto e Sá da Bandeira) e nos maiores armazéns comerciais.
Com o advento do som, surgiram nas décadas seguintes uma nova geração de salas, técnica e esteticamente mais cuidadas. A primeira dessas salas foi o novo Teatro Rivoli, inaugurado em 1926. Anos mais tarde, o imponente Teatro São João também se transformaria num cinema, uma mudança estratégica que motivou a alteração do nome da sala para São João Cine.





Em Junho de 1947 foi inaugurado o actual Cinema Batalha, projectado pelo Arqt.º Artur Andrade, constituído por dois auditórios, um com capacidade para 950 lugares sentados (346 lugares na plateia, 222 na tribuna e 382 no balcão) e outro para 135 pessoas; dois bares e um restaurante com esplanada. É importante referir que a censura vigente na época ordenou o apagamento do fresco de Júlio Pomar existente no interior, como também a retirada dos motivos do baixo-relevo de Américo Braga na fachada. Em 1948 é realizada a primeira sessão do Cineclube do Porto neste espaço.
O pouco terreno disponível e o seu acentuado declive dificultaram a elaboração deste projecto. A plateia ficou curta (19 filas) devido à implantação de um foyer, que era indispensável para a circulação pública neste tipo de edifícios. O seu encurtamento permitiu a construção de uma tribuna que assentava sobre as duas paredes do foyer, funcionando os dois como elementos de ligação entre os pavimentos. O balcão, de maior lotação, apresentava projecção para o interior da sala e uma largura à retaguarda, o que o tornam na parte dominante do conjunto geral da sala. A fachada do edifício contígua ao pré-existente edifício dos correios respeitava a altura do mesmo, enquanto que a fachada posterior, de linhas curvas, se salientava à altura da cornija.
Do ponto de vista cinematográfico, o Cinema Batalha marcou várias gerações e públicos. Foi neste espaço por excelência que eram exibidas as grandes superproduções de Hollywood, como A Queda do Império Romano, Ben-Hur, Spartacus, Cléopatra, Dez Mandamentos. Foi um espaço marcado também pelos ciclos exibidos pelo Cineclube do Porto, com salas cheias e discussões intermináveis sobre filmes como Hiroshima, Meu Amor, Ladrões de Bicicletas, O Leopardo, O Couraçado Potemkin, etc.






























Entre as décadas de 1950 a 1970 foram inauguradas diversas salas de cinema, tais como Júlio Dinis, Vale Formoso, Terço, Nun' Alvares, Passos Manuel, Pedro Cem, Lumiére, entre outras que não chegaram à actualidade (muitas destas salas mencionadas também já se encontram encerradas). A década de 1970 foi muito negra para os cinemas portuenses, visto que começaram a perder espectadores, como também diminuíram a qualidade das suas exibições, transformando-se em "cinemas de bairro", em espaços dedicados aos filmes pornográficos ou em espaços vazios. Em 1975 a Sala Bébé abriu ao público, localizada na cave do gigantesco Batalha. Só na década de 1990 é que a exibição cinematográfica voltou a ganhar um novo impulso, com o surgimento de multiplexes nos centros comerciais. Contudo esta inovação, apesar de conquistar novamente o público, não impediu que as salas mais tradicionais da Invicta começassem a morrer lentamente.
O Batalha seria encerrado em 2000 e três anos depois houve uma tentativa de se transformar este espaço num multiplex, que seria gerido pela empresa Mediaplex, e que teria a designação de Multimax. Contudo, esta ideia acabou por não vingar.
Em 2006, este cinema seria reabilitado pelo Porto Vivo, um projecto da Associação de Comerciantes do Porto (ACP). Aproveitando as verbas que o Grupo Amorim cedeu à associação como forma de ressarcir os prejuízos comerciais com o Plano Pormenor das Antas, a ACP criou um gabinete que se responsabilizou pela recuperação e modernização do cinema.
A sala principal de cinema, com cerca de 800 lugares, era explorada por uma empresa responsável pela programação durante todo o ano, com música, variedades e cinema. A chamada “Sala Bebé”, com cerca de 300 lugares, era utilizada pelo Centro de Iniciação às Artes para as Crianças, criado pelo Porto Vivo, através de “matinées” infantis com workshops e ocupação de tempos livres. Além das actividades do Cineclube do Porto e dos tempos livres, na sala decorriam colóquios e debates. O espaço conta ainda a exploração de três grandes átrios para restauração. No rés-do-chão funcionava um café e um bar à noite; no 1º andar, refeições ligeiras; no 3º piso um restaurante com utilização do terraço que nunca foi aproveitado.








No entanto em 2010 o Cinema Batalha viria a fechar portas novamente, tendo a sua gestão sido devolvida aos seus originais proprietários.



Fonte: 
http://cine-batalha.blogspot.pt/p/cronologia.html
http://cine-batalha.blogspot.pt/2012_11_01_archive.html
http://multimax-batalha.com/go/site.html
http://www.cinemasdoporto.com/cinemas_Batalha.htm

Cinema dos Primórdios - A Voz do Operário (1879)



A Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário nasceu em 1879, numa altura em que a luta contra a monarquia por parte das classes laboriosas estava a ascender.
Nos seus primórdios, este espaço foi um jornal criado por operários tabaqueiros, de modo a publicar noticias sobre a indústria tabaqueira que estava a viver uma enorme crise. Com sede no Beco das Flores (actualmente Rua Norberto de Araújo), este jornal implicava uma tremenda exigência financeira o que obrigou os operários a procurarem formas de sobrevivência para o projecto. 


Assim nasce a Sociedade Cooperativa A Voz do Operário, cujos objectivos eram: estudar uma forma de resolver o problema do trabalho, melhorando as suas condições de um ponto de vista económico, moral e higiénico; estabelecer escolas, gabinetes de leitura, caixa económica, de modo a possibilitar a instrução e o bem-estar da classe trabalhadora em geral e dos sócios em particular.
Em 1887, A Voz do Operário abandonou o Beco de Froes e mudou-se para a Calçada de São Vicente, onde alterou para a designação que mantém actualmente. Em 1912, foi lançada a primeira pedra de construção da sede onde se encontra actualmente A Voz do Operário (sita na Rua Voz do Operário), tendo as obras concluindo em 1932. Por esta altura, esta Sociedade começou a exibir filmes no seu salão nobre mantendo essa função até à actualidade, com uma programação composta por ciclos de cinema alternativo. A sua lotação é de 858 lugares.



Esta sociedade sobreviveu com muita dificuldade durante a ditadura do Estado Novo, com a censura a amputar grande parte das notícias do jornal e a cercear as actividades culturais. Até a educação foi sujeita às imposições do Estado Novo, esforçando por proporcionar uma formação integral para os seus alunos. Com o derrube da ditadura em 25 de Abril de 1974, esta sociedade renasceu com o seu método pedagógico, Movimento da Escola Moderna, a impor-se no panorama do ensino nacional até à actualidade. Com a Revolução dos Cravos, regressaram as actividades culturais como os espectáculos musicais, cinema, teatro, exposições de artes plásticas e dança, como também as acções sociais para os idosos e crianças com a inauguração de um centro de convívio e de creches.
Esta obra da autoria do Arq.º Norte Júnior possui uma portentosa fachada neo-barroca, de grandioso efeito cénico e densa decoração. O edifício é constituído por pisos escolares sendo que o salão nobre encontra-se no piso superior, inicialmente dedicado a actividades desportivas e posteriormente transformado em sala de cinema e que actualmente é utilizado como sala polivalente, mantendo o mobiliário e decoração originais, onde se evidencia o magnifico vitral de Norte Júnior. O frontão é suportado por dois fortes pilares e ostenta um vitral em óculo circular, ornado com motivos simbólicos, que marca o corpo do salão. Também possui umas estreitas escadas metálicas nas traseiras.






A Voz do Operário tornou-se numa enorme referência educacional, social e cultural de Lisboa e como tal merece ser pesquisada e falada em qualquer livro ou projecto sobre esta cidade.



Fonte: 
Ribeiro, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
Fernandes, José Manuel, Cinemas de Portugal, Lisboa, Edições Inapa, 1995
http://cinemaaoscopos.blogspot.pt/2009/11/voz-do-operario-1932-actualidade.html
http://www.ecadequeiros.web.pt/Textos/Visita%20Voz%20do%20Oper%C3%A1rio.pdf
- http://billy-news.blogspot.pt/2010/04/tara-perdida-review-da-voz-do-operario.html
- http://www.apvo.org/a-voz-do-operario/
- http://www.cm-lisboa.pt/en/equipments/equipamento/info/edificio-de-a-voz-do-operario

Bilhetes e Programas de Cinema


Como o título indica, aqui ficam alguns programas e bilhetes de outrora.





Fonte: Fernandes, José Manuel (1995), Cinemas de Portugal. Edições Inapa
http://www.cinemasdoporto.com/aguiadouro/index.htm

Cinema dos Primórdios: Chiado Terrasse



Em 1908 na Rua António Maria Cardoso (antiga Rua do Tesouro Velho) foi inaugurado o primeiro cinema especialmente construído para o efeito a quem foi dado o nome de Chiado Terrasse. Foi considerada uma das mais importantes salas de cinema de Lisboa devido à amplitude das suas instalações, dos seus programas, como também do êxito do animatógrafo “falado”, conseguindo acomodar 650 espectadores na época. 
Em 1910, Sabino Correia (responsável pelo cinema) encetou obras de melhoramentos, tendo sido construída uma esplanada para dessa forma atrair mais público. Em 1911, o Arqt.º Tertuliano de Lacerda Marques redesenhou a fachada, conferindo-lhe um ar mais erudito e clássico. 









Em 1916, António Augusto Tittel e Alberto do Valle Colaço tornaram-se responsáveis pelo espaço e iniciaram uma série de transformações no edifício, conferindo-lhe o aspecto exterior que permaneceria até ao seu desaparecimento, para além da construção de um pequeno palco que seria utilizado por uma companhia de revista. Pouco tempo depois, este cinema voltou a ter um novo dono de seu nome Arthur Emúz, um empresário ligado ao negócio cinematográfico, gerente da empresa distribuidora “A Internacional Sociedade de Cinematografia, Limitada” como também do Salão Trindade.



Em 1918, é inaugurada a época de Inverno que coincidia com a apresentação do sexteto privativo do cinema, de onde faziam parte grandes nomes do panorama musical português da altura como Teófilo Russel, Flaviano Rodrigues e Carlos Quillez. 
Em 1921 no início do Verão, este cinema passou a apresentar números de variedades, acabando por ser remodelado interiormente na década de 1930 num estilo Art-Deco. A sua bilheteira de rua era agressiva e muito alta para as crianças, mas era continuava a ser uma agradável sala de bairro. E com o decorrer do tempo, este cinema se dedicaria a uma programação de “reprise” conquistando assim uma clientela fiel e interessada. Com esse tipo de exploração, o Chiado Terrasse praticava por volta de 1930 os seguintes preços: camarotes, 18$00; balcão, 5$00; 1ª plateia, 5$50; 2ª plateia, 3$00.



Em 1972, o edifício foi demolido internamente e vendido ao Banco Fonseca e Burnay pela família Levy, que era a sua proprietária. Atualmente continua a ser um banco mantendo a fachada intacta, mas sem a graciosidade dos candeeiros e do lettering de outrora.



Fonte: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012


RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978

http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/12/chiado-terrasse-1908-1972.html

- http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/Imagem.aspx?ID=2103020&Mode=M&Linha=1&Coluna=1

- http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/Imagem.aspx?ID=2103021&Mode=M&Linha=1&Coluna=1

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