Rendez-Vous D' Elite - O cinema chega aos castelo...


Depois de duas paragens seguidas por terras do Sul, volto novamente à capital do Norte para  recordar um espaço dedicado ao cinema, que existiu no Castelo de São João Baptista na Foz do Douro. Estou a falar do Rendez-Vouz D' Elite.
Provavelmente poucos portuenses se lembrarão deste cinema com um nome tão "elegante", que abriu as portas ao público em 1907. Este espaço pertencia à Empreza Cynematográfica Portugueza de Neves e Pascaud, que também geria o High-Life (actual Cinema Batalha).
Este espaço foi concebido para exibir filmes ao ar livre, vocacionado para atrair as famílias burguesas da cidade que durante o Verão passavam férias na Foz do Douro. Escusado será dizer que as sessões estavam sempre esgotadas, a comodidade era ponto assente e o preço dos bilhetes aumentava a afluência da elite.
Como era um cinema ao ar-livre, a sua utilização limitava-se aos meses de verão, mas mesmo assim elas foram bem-sucedidas até à 2ª Guerra Mundial. Como o nosso país deixou de ser neutro, as principais cidades portuguesas adoptaram medidas de defesa contra uma eventual invasão, sendo uma delas a redução da iluminação nocturna ao mínimo, com a excepção dos holofotes das anti-aéreas que varriam os céus com exercícios regulares.
As últimas sessões ocorreram por volta de 1944, culminando com o encerramento definitivo do espaço.



Fonte:
http://cinemaaoscopos.blogspot.pt/2012/03/rendez-vous-delite-porto.html


Coliseu de Lisboa - Um luxo de teatro

Regresso novamente a Lisboa neste dia dedicado a Portugal, para falar sobre um espaço que beneficiou imenso da sua localização na Rua das Portas de Santo Antão nos Restauradores. Claro que já sabem de que edifício estou a falar: o Coliseu de Lisboa, também conhecido de Coliseu dos Recreios.
Apesar de não ter sido originalmente concebido como uma sala de cinema quando foi inaugurado em 1890, foi mais um espaço a fazer sucesso com as primeiras exibições cinematográficas. Na época era considerada como a maior e a mais luxuosa casa de espectáculos construída em Lisboa. Era também uma sala popular que estabelecia preços baixos, evidenciando-se no campo da ópera durante a Primeira República, constituindo uma alternativa ao Teatro de São Carlos.



A construção deste espaço avançou graças ao empenho de quatro empresários audaciosos: o solicitador José Ciríaco; o professor de Filosofia Pedro Monteiro; o dono dos armazéns António Caetano Macieira e o comerciante de carnes João Baptista Almeida. No entanto, os custos da construção original eram tremendos e tiveram que ser cobertos graças a uma subscrição pública. Com a vontade e entusiasmo dos empresários, conseguiu-se angariar o dinheiro necessário para a construção...e até o rei ajudou, tornando-se também accionista. 
No entanto, houve alguns factores que tentaram impedir que o Coliseu fosse construído... um deles foi a oposição do influente Conde Burnay (que era dono de vastos terrenos na zona), que não queria que um circo fosse instalado num terreno contíguo ao seu. Outro foi a recusa dos arquitectos de prestigio José António Gaspar e Domingos Parente da Silva em fazer o projecto de edificação, possivelmente por não quererem estar associados a um circo.







A escolha final recaiu em Francisco Goullard (pai e filho engenheiros franceses), Frederico Ressano Garcia (engenheiro português), o mestre M. Gouveia Júnior e o Eng.º Xavier Cordeiro. Na fase final da construção Eduardo Machado (cenógrafo lisboeta) teve luz verde para proceder à decoração do espaço, como também ao funcionamento do palco com 40 metros de profundidade, 18 metros de largura, uma teia em madeira e maquinismos manuais. Esta obra introduziu a arquitectura em ferro, pouco utilizada na altura em Portugal, através de uma grandiosa cúpula em ferro com 25 metros vinda da Alemanha.
Esta construção em forma de eneágono, com capacidade para receber 5700 espectadores, era composta por uma vasta plateia, uma geral (em anfiteatro), duas ordens de camarotes e um promenoir que permitia que o público circulasse livremente pelo recinto. A cúpula de ferro assentava directamente nas grossas paredes do edifício  de modo a que este ficasse desafogado de colunas. Claro que o edifício foi muito elogiado pelos lisboetas porque representava uma inovação na arquitectura da cidade, comparável às maiores obras estrangeiras. Foi sempre um espaço multifacetado porque poderia exibir cinema, como também espectáculos de música, circo, canto, teatro, etc. A sua estrutura, maleabilidade e fácil adaptação aos mais diversos programas permitiu o acolhimento do animatógrafo.








António Maria dos Santos Júnior (empresário gerente do Real Coliseu de Lisboa) foi convidado para ingressar como director-gerente do Coliseu em 1897, muito por culpa do prestígio que angariou no Real Coliseu. E assim se manteve até 1920 (ano da sua morte), provando que o seu trabalho era essencial para este teatro.


No mesmo ano de 1897, uma companhia apresentou neste espaço o Cinematógrafo dos Irmãos Lumiére, seguindo-se no ano seguinte a apresentação do aparelho Biograph, uma máquina mais sofisticada da autoria de Léon Gaumont. Nos anos subsequentes diversas máquinas passaram por este espaço desde o Vitagraph, passando pelos Animatógrafo Excelsior e Royal Cosmograph. 1904 foi o ano em que entrou em cena o Royal Cronofotógrafo, um novo aparelho de projecção cinematográfica e cujas novidades eram o funcionamento automático e a projecção de quadros a cores. A partir daqui, tudo se modificaria no jogo do cinema e das salas. Dois anos depois estreava-se o Animatógrafo Pathé, que no seu programa incluía a obra de Georges Meliés intitulada A Viagem através do Impossivel que tinha a duração de 25 minutos, sendo considerada uma novidade para a época. Em 1909 estreava o Electrosonograph, uma máquina que funcionava sem a sala estar completamente escurecida.










Em 1917 através da companhia "Lusitânia Filmes", o espaço foi alugado para a exibição de fitas das grandes casas americanas e europeias. Esta companhia foi formada por um grupo de jovens com o objectivo de reunirem numa só empresa três elementos-chave: a produção, distribuição e exibição. Para além dos três principais fundadores - Celestino Soares (que idealizara este empreendimento e que se tornaria no gerente da companhia), Luís Reis Santos (director artístico) e Júlio Fernando Potes (filho de importantes lavradores alentejanos e capitalista), também se incluía neste grupo José Leitão de Barros e José Ângelo Cottinelli Telmo. Todos eles queriam dar um novo rumo à exibição cinematográfica e para isso modificaram o interior do Coliseu, instalando no centro da sala (onde se encontrava a habitual pista) um sistema de quatro ecrãs com as respectivas aparelhagens de projecção, dividindo a sala em quatro sectores, o que causou alvoroço na sociedade lisboeta. Realça-se também a presença de uma orquestra para todos os sectores, que animava os intervalos da exibição dos filmes.
No entanto, a história deste edifício encerra também alguma turbulência. A "Lusitânia Filmes" veria os seus esforços a serem gorados graças a uma teia de intrigas envolvendo os seus principais fundadores, que foram alvo de uma acção judicial que culminou na sua prisão e posterior absolvição. 







Com o aparecimento de outras salas de cinema espalhadas pela cidade, o Coliseu voltaria à função de multiusos, sendo a de cinema reduzida até à década de 1980. Na década de 1990, este espaço encerrou para obras de modernização e restauro.  A mais importante foi relativa à segurança e consistiu na substituição de toda a instalação eléctrica, incluindo um sistema de alarme contra incêndios. 
Realça-se também a lavagem e pintura de toda a fachada, como também a substituição dos portões gradeados por portas de vidros; o átrio foi aumentado por culpa do recuo da zona das bilheteiras para o espaço anteriormente ocupado pelo escritório da empresa (que foi deslocado para outro sitio); no átrio foi colocado um ascensor; o bar no 1º andar foi modernizado; na sala de espectáculos, a maior modificação foi a que incidiu na geral e na geral reservada, que deixaram de ter degraus, abrangendo todo o espaço entre a entrada central da sala e a extremidade da geral reservada, próxima do proscénio.
A estrutura das duas gerais foi alterada com o aparecimento de locais individuais em cadeiras, conforme a disposição da sala nos vários espectáculos realizados. O varandim colocado sobre a entrada central para a plateia e gerais foi suprimido e no tecto da sala foi colocado um grande globo central, rodeado por outros ao longo de duas circunferências concêntricas. Na parte alta da sala foi instalado um sistema de anteparos, destinado a melhorar as condições acústicas. Foi colocada uma ponte ligando as duas zonas da varanda mas próxima do palco, de modo a instalar o sistema de iluminação de cena. A cor que passou a predominar na sala foi o cinzento, com alguns tons de azul à mistura. Na zona do palco, houve modificações nos camarins que agora apresentam excelentes condições de higiene e comodidade.
Este espaço reabriu em 1994, continuando com a sua função de multiusos até à actualidade, visto que possui uma excelente acústica própria de grandes espectáculos.






Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978

Cinemas do Paraíso: Setúbal


Hoje vou debruçar a minha atenção sobre a distinta cidade de Setúbal que sendo rica em história, também descobri que é rica em história cinematográfica. 
Setúbal possuiu diversos espaços dedicados ao cinema e quase todos eles já encerraram...alguns até já desapareceram sem deixar qualquer marca da sua existência, a não ser nas memórias dos setubalenses.
A minha visita começa no inicio do séc. XX com a inauguração em 1908 do Casino Setubalense. No inicio abria portas para a Rua dos Marmelinhos (actual Rua António Maria Eusébio), mas depois a entrada passou a realizar-se através da Avenida Luísa Todi. Em Maio do mesmo ano foram concluídas as pinturas, realizadas modificações na plateia e colocada uma máquina cinematográfica.
Este espaço era vasto, com a sua capacidade a oscilar entre os 700 e os 800 lugares e em Julho de 1908 já era a casa mais frequentada da cidade.



A quantidade e diversidade da programação marcava esta sala, por onde passaram orquestras, artistas circenses, concursos de luta greco-romana, espectáculos de hipnotismo e ilusionismo e claro o cinema. Primeiramente foram exibidos filmes mudos, tendo mais tarde sido exibidos os filmes sonoros.
A sua existência foi marcada pelos diversos arrendatários que teve e pelas modificações que sofreu, tornando este espaço mais confortável e moderno. Em 1910 fechou para pequenas remodelações, tendo sido executadas obras no bufete e sala de fumo, repinturas e abertura de três grandes portas para a Rua dos Marmelinhos.
Com o passar do tempo, este espaço foi decaindo e acabou por fechar na década de 1920, tendo reabrindo em 1933 por iniciativa do União Futebol Comércio e Indústria, que fomentou a realização de bailes muito concorridos com 1500 a 2000 pessoas por noite. Com o proprietário José Manuel Barafusa retoma a sua actividade cinematográfica alguns meses mais tarde.



Três anos depois volta a fechar para alguns melhoramentos, mas nunca foi feita uma remodelação profunda, o que contribuiu para a sua decadência progressiva.
Na década de 1970, este espaço exibia sobretudo filmes do Trinitá, artes marciais e pornográficos, tendo fechado em definitivo as portas na década seguinte.
O seu edifício permanece actualmente erguido, com a fachada pintada de branco e emparedada (para quem passeia a Av.ª Luísa Todi). Nas traseiras (viradas para a Rua António Maria Eusébio) encontra-se a Danceteria Casino Setubalense, um espaço de convívio,  dança e cinema.



Continuando a passear na emblemática e enorme Avenida Luísa Todi, encontro  provavelmente um dos maiores marcos da arquitectura setubalense: o Fórum Luisa Todi.
Este espaço já se dedicou exclusivamente ao teatro como também ao cinema, sendo actualmente um espaço cultural direccionado para diversas artes como o teatro, a dança, música e outros eventos.



A história deste emblemático edifício inicia-se com a sua construção em 1894, através da empresa de Recreio Setubalense, sob a direcção do arquitecto italiano Nicola Bagaglia. Contudo, a sua inauguração só iria ocorrer em 1897 com a denominação de Teatro Rainha D. Amélia, e logo com um vasto programa: a cançoneta Ventura, o Bom Velhote e as encenações O Livro de Mesmer e A Barcarola, esta última da autoria do setubalense Arronches Junqueiro.



O espaço era bem iluminado e a gás, constituído por 222 lugares na plateia, oito frisas, 17 camarotes de primeira ordem, dez de segunda ordem, dois balcões e galeria de fundo. Os cenários eram da autoria dos artistas Eduardo Machado, João Vaz, Francisco Augusto Flamengo e Augusto Pina. Também chamavam a atenção os elementos decorativos como os  ornamentos e o pano de boca, concebido pelo pintor setubalense João Vaz e que actualmente integra o acervo do Museu de Setúbal/Convento de Jesus.



Em 1908 foi considerado "talvez a mais bonita e elegante casa de espectáculo de Portugal" por Sousa Basto no Dicionário do Teatro Português, rivalizando assim na época com o espaço homónimo que existia em Lisboa (actual Teatro São Luiz).
Com a implantação da República, este espaço perdeu o nome régio e em 1911 passou a designar-se de Teatro Avenida, concluída a instalação do Centro Republicano.
Com o tempo as instalações foram se degradando, mas em 1915 este edifício recebeu a Academia Sinfónica de Setúbal, que rebaptizou-o de Luisa Todi.
Depois do encerramento para obras de remodelação, este teatro reabriu ao público em 1918,  com mais modernidade e no formato de cineteatro, resultante da instalação da rede eléctrica no edifício.
Contudo, o espaço acabou por entrar em decadência, chegando mesmo a ser alvo de vandalismos, tendo sido adquirido à posteriori por Raul Perfeito dos Santos, que reparou, remodelou e entregou o edifício à Empresa Rosa Albino. Depois da morte do empresário Rosa Albino, o teatro deixou de ter actividades artísticas e começou a mostrar sinais de ruína, tendo nessa altura servido de sede para a Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense.



Entretanto, a Companhia União Fabril adquiriu o teatro que acabou por ser demolido para, no seu lugar, ser construído o actual edifício que também seria um cineteatro. O novo espaço seria completamente diferente do anterior (com inspiração italiana) devido à sua traça modernista, desenhada pelo Arquitecto Fernando Silva. 



A sua construção iniciou-se em 1958 e foi inaugurado como Cineteatro Luísa Todi em 1960 pelo Presidente da República Américo Tomás. Neste ano comemorava-se o primeiro centenário da elevação de Setúbal a cidade. O primeiro filme a ser exibido nesta nova sala foi Os Dez Mandamentos de Cecil B. de Mille.



Em 1990 este edifício passou a ser propriedade da Câmara Municipal, tendo beneficiado de vários investimentos de modo a que o espaço fosse modernizado, como também houvesse uma melhoria da qualidade do serviço cultural prestado.
Em 2009 foi iniciado um projecto de remodelação, concebido por Paulo Ramos e Cidália Worm do Gabinete ETU - Espaço, Tempo e Utopia, a partir de um plano desenvolvido pelo arquitecto municipal Sérgio Dias. 
Este espaço voltou a abrir portas em 2012 completamente modernizado e dotado de uma panóplia de valências necessárias para acolher diversos eventos e diferentes estilos artísticos, como também congressos e seminários. A distinta traça arquitectónica de 1960 manteve-se, sendo considerada uma das imagens de marca da cidade.
Neste actual edifício existe: um foyer com espaços de exposição, área de venda de merchandising e bengaleiro, que dá acesso à bilheteira e ao elevador que serve o balcão; um playground para crianças que serve para entreter as crianças durante os espectáculos; uma cafetaria localizada na entrada para a sala principal; uma escultura evocativa de Luísa Todi, composta por dois elementos localizado no exterior e interior do edifício  da autoria de Sérgio Vicente.





Possui uma sala principal capaz de acolher grandes espectáculos, como também congressos, seminários, colóquios, etc., forrada a madeira para proporcionar as melhores condições de acústica. Esta sala tem uma lotação de 634 lugares, sendo 398 lugares na plateia (inclinada e adaptada para pessoas com mobilidade reduzida) e 236 lugares no balcão; 






Uma sala multiusos que serve para acolher espectáculos mais intimistas e que se localiza no topo do edifício, tendo como pano de fundo vistas panorâmicas sobre a cidade e o rio. Quando não serve para espectáculos, funciona como café/casa de chá com lotação para 132 lugares na plateia e 60 para o café-concerto.







Deixando a avenida principal da cidade, chega-se à Rua António Manuel Gamito e encontra-se o Cinema Charlot, uma pequena sala de cinema que foi adquirida pela Autarquia em 1998, reabrindo em 2000 após obras de remodelação. Desde aí tem se registado uma boa afluência a este espaço, estimando-se o número de 226 mil espectadores em sessões regulares de cinema.
Em 2011 este espaço sofreu importantes obras de requalificação, visando a resolução de problemas no domínio da drenagem de águas, como também a implementação de climatização na sala, segurança contra incêndios, instalações sanitárias para deficientes motores, equipamento de projecção video, pisos e revestimentos e uma nova decoração.
Esta sala integra a Europa Cinemas (rede europeia de salas de cinema) e a CICAE - Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio. A programação cinematográfica é assegurada no âmbito de um protocolo entre o Municipio de Setúbal e a Associação Cultural Festroia.  Aliás, este espaço acolhe anualmente o Festroia - Festival Internacional de Cinema de Setúbal. Também serve a realização de encontros, seminários, congressos e outras actividades e tem a lotação de 239 lugares.






Last but not least...é importante referir o desaparecimento de duas salas de cinema que ainda se encontram presentes na memória de muitos setubalenses.
O Cinema Jupiter (que provavelmente fechou nos anos 90) localizava-se na Rua 22 de Dezembro e actualmente é um Centro de Ajuda Espiritual. 



O Cinema Bocage (que também fechou nos anos 90) localizava-se na Avenida República Guiné Bissau no Centro Comercial Bonfim, sendo actualmente um estabelecimento comercial.




Fonte:

 
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