Cinemas do Paraíso: Setúbal


Hoje vou debruçar a minha atenção sobre a distinta cidade de Setúbal que sendo rica em história, também descobri que é rica em história cinematográfica. 
Setúbal possuiu diversos espaços dedicados ao cinema e quase todos eles já encerraram...alguns até já desapareceram sem deixar qualquer marca da sua existência, a não ser nas memórias dos setubalenses.
A minha visita começa no inicio do séc. XX com a inauguração em 1908 do Casino Setubalense. No inicio abria portas para a Rua dos Marmelinhos (actual Rua António Maria Eusébio), mas depois a entrada passou a realizar-se através da Avenida Luísa Todi. Em Maio do mesmo ano foram concluídas as pinturas, realizadas modificações na plateia e colocada uma máquina cinematográfica.
Este espaço era vasto, com a sua capacidade a oscilar entre os 700 e os 800 lugares e em Julho de 1908 já era a casa mais frequentada da cidade.



A quantidade e diversidade da programação marcava esta sala, por onde passaram orquestras, artistas circenses, concursos de luta greco-romana, espectáculos de hipnotismo e ilusionismo e claro o cinema. Primeiramente foram exibidos filmes mudos, tendo mais tarde sido exibidos os filmes sonoros.
A sua existência foi marcada pelos diversos arrendatários que teve e pelas modificações que sofreu, tornando este espaço mais confortável e moderno. Em 1910 fechou para pequenas remodelações, tendo sido executadas obras no bufete e sala de fumo, repinturas e abertura de três grandes portas para a Rua dos Marmelinhos.
Com o passar do tempo, este espaço foi decaindo e acabou por fechar na década de 1920, tendo reabrindo em 1933 por iniciativa do União Futebol Comércio e Indústria, que fomentou a realização de bailes muito concorridos com 1500 a 2000 pessoas por noite. Com o proprietário José Manuel Barafusa retoma a sua actividade cinematográfica alguns meses mais tarde.



Três anos depois volta a fechar para alguns melhoramentos, mas nunca foi feita uma remodelação profunda, o que contribuiu para a sua decadência progressiva.
Na década de 1970, este espaço exibia sobretudo filmes do Trinitá, artes marciais e pornográficos, tendo fechado em definitivo as portas na década seguinte.
O seu edifício permanece actualmente erguido, com a fachada pintada de branco e emparedada (para quem passeia a Av.ª Luísa Todi). Nas traseiras (viradas para a Rua António Maria Eusébio) encontra-se a Danceteria Casino Setubalense, um espaço de convívio,  dança e cinema.



Continuando a passear na emblemática e enorme Avenida Luísa Todi, encontro  provavelmente um dos maiores marcos da arquitectura setubalense: o Fórum Luisa Todi.
Este espaço já se dedicou exclusivamente ao teatro como também ao cinema, sendo actualmente um espaço cultural direccionado para diversas artes como o teatro, a dança, música e outros eventos.



A história deste emblemático edifício inicia-se com a sua construção em 1894, através da empresa de Recreio Setubalense, sob a direcção do arquitecto italiano Nicola Bagaglia. Contudo, a sua inauguração só iria ocorrer em 1897 com a denominação de Teatro Rainha D. Amélia, e logo com um vasto programa: a cançoneta Ventura, o Bom Velhote e as encenações O Livro de Mesmer e A Barcarola, esta última da autoria do setubalense Arronches Junqueiro.



O espaço era bem iluminado e a gás, constituído por 222 lugares na plateia, oito frisas, 17 camarotes de primeira ordem, dez de segunda ordem, dois balcões e galeria de fundo. Os cenários eram da autoria dos artistas Eduardo Machado, João Vaz, Francisco Augusto Flamengo e Augusto Pina. Também chamavam a atenção os elementos decorativos como os  ornamentos e o pano de boca, concebido pelo pintor setubalense João Vaz e que actualmente integra o acervo do Museu de Setúbal/Convento de Jesus.



Em 1908 foi considerado "talvez a mais bonita e elegante casa de espectáculo de Portugal" por Sousa Basto no Dicionário do Teatro Português, rivalizando assim na época com o espaço homónimo que existia em Lisboa (actual Teatro São Luiz).
Com a implantação da República, este espaço perdeu o nome régio e em 1911 passou a designar-se de Teatro Avenida, concluída a instalação do Centro Republicano.
Com o tempo as instalações foram se degradando, mas em 1915 este edifício recebeu a Academia Sinfónica de Setúbal, que rebaptizou-o de Luisa Todi.
Depois do encerramento para obras de remodelação, este teatro reabriu ao público em 1918,  com mais modernidade e no formato de cineteatro, resultante da instalação da rede eléctrica no edifício.
Contudo, o espaço acabou por entrar em decadência, chegando mesmo a ser alvo de vandalismos, tendo sido adquirido à posteriori por Raul Perfeito dos Santos, que reparou, remodelou e entregou o edifício à Empresa Rosa Albino. Depois da morte do empresário Rosa Albino, o teatro deixou de ter actividades artísticas e começou a mostrar sinais de ruína, tendo nessa altura servido de sede para a Sociedade Musical e Recreativa União Setubalense.



Entretanto, a Companhia União Fabril adquiriu o teatro que acabou por ser demolido para, no seu lugar, ser construído o actual edifício que também seria um cineteatro. O novo espaço seria completamente diferente do anterior (com inspiração italiana) devido à sua traça modernista, desenhada pelo Arquitecto Fernando Silva. 



A sua construção iniciou-se em 1958 e foi inaugurado como Cineteatro Luísa Todi em 1960 pelo Presidente da República Américo Tomás. Neste ano comemorava-se o primeiro centenário da elevação de Setúbal a cidade. O primeiro filme a ser exibido nesta nova sala foi Os Dez Mandamentos de Cecil B. de Mille.



Em 1990 este edifício passou a ser propriedade da Câmara Municipal, tendo beneficiado de vários investimentos de modo a que o espaço fosse modernizado, como também houvesse uma melhoria da qualidade do serviço cultural prestado.
Em 2009 foi iniciado um projecto de remodelação, concebido por Paulo Ramos e Cidália Worm do Gabinete ETU - Espaço, Tempo e Utopia, a partir de um plano desenvolvido pelo arquitecto municipal Sérgio Dias. 
Este espaço voltou a abrir portas em 2012 completamente modernizado e dotado de uma panóplia de valências necessárias para acolher diversos eventos e diferentes estilos artísticos, como também congressos e seminários. A distinta traça arquitectónica de 1960 manteve-se, sendo considerada uma das imagens de marca da cidade.
Neste actual edifício existe: um foyer com espaços de exposição, área de venda de merchandising e bengaleiro, que dá acesso à bilheteira e ao elevador que serve o balcão; um playground para crianças que serve para entreter as crianças durante os espectáculos; uma cafetaria localizada na entrada para a sala principal; uma escultura evocativa de Luísa Todi, composta por dois elementos localizado no exterior e interior do edifício  da autoria de Sérgio Vicente.





Possui uma sala principal capaz de acolher grandes espectáculos, como também congressos, seminários, colóquios, etc., forrada a madeira para proporcionar as melhores condições de acústica. Esta sala tem uma lotação de 634 lugares, sendo 398 lugares na plateia (inclinada e adaptada para pessoas com mobilidade reduzida) e 236 lugares no balcão; 






Uma sala multiusos que serve para acolher espectáculos mais intimistas e que se localiza no topo do edifício, tendo como pano de fundo vistas panorâmicas sobre a cidade e o rio. Quando não serve para espectáculos, funciona como café/casa de chá com lotação para 132 lugares na plateia e 60 para o café-concerto.







Deixando a avenida principal da cidade, chega-se à Rua António Manuel Gamito e encontra-se o Cinema Charlot, uma pequena sala de cinema que foi adquirida pela Autarquia em 1998, reabrindo em 2000 após obras de remodelação. Desde aí tem se registado uma boa afluência a este espaço, estimando-se o número de 226 mil espectadores em sessões regulares de cinema.
Em 2011 este espaço sofreu importantes obras de requalificação, visando a resolução de problemas no domínio da drenagem de águas, como também a implementação de climatização na sala, segurança contra incêndios, instalações sanitárias para deficientes motores, equipamento de projecção video, pisos e revestimentos e uma nova decoração.
Esta sala integra a Europa Cinemas (rede europeia de salas de cinema) e a CICAE - Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio. A programação cinematográfica é assegurada no âmbito de um protocolo entre o Municipio de Setúbal e a Associação Cultural Festroia.  Aliás, este espaço acolhe anualmente o Festroia - Festival Internacional de Cinema de Setúbal. Também serve a realização de encontros, seminários, congressos e outras actividades e tem a lotação de 239 lugares.






Last but not least...é importante referir o desaparecimento de duas salas de cinema que ainda se encontram presentes na memória de muitos setubalenses.
O Cinema Jupiter (que provavelmente fechou nos anos 90) localizava-se na Rua 22 de Dezembro e actualmente é um Centro de Ajuda Espiritual. 



O Cinema Bocage (que também fechou nos anos 90) localizava-se na Avenida República Guiné Bissau no Centro Comercial Bonfim, sendo actualmente um estabelecimento comercial.




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