Coliseu de Lisboa - Um luxo de teatro


Regresso novamente a Lisboa neste dia dedicado a Portugal, para falar sobre um espaço que beneficiou imenso da sua localização na Rua das Portas de Santo Antão nos Restauradores. Claro que já sabem de que edifício estou a falar: o Coliseu de Lisboa, também conhecido de Coliseu dos Recreios.
Apesar de não ter sido originalmente concebido como uma sala de cinema quando foi inaugurado em 1890, foi mais um espaço a fazer sucesso com as primeiras exibições cinematográficas. Na época era considerada como a maior e a mais luxuosa casa de espectáculos construída em Lisboa. Era também uma sala popular que estabelecia preços baixos, evidenciando-se no campo da ópera durante a Primeira República, constituindo uma alternativa ao Teatro de São Carlos.



A construção deste espaço avançou graças ao empenho de quatro empresários audaciosos: o solicitador José Ciríaco; o professor de Filosofia Pedro Monteiro; o dono dos armazéns António Caetano Macieira e o comerciante de carnes João Baptista Almeida. No entanto, os custos da construção original eram tremendos e tiveram que ser cobertos graças a uma subscrição pública. Com a vontade e entusiasmo dos empresários, conseguiu-se angariar o dinheiro necessário para a construção...e até o rei ajudou, tornando-se também accionista. 
No entanto, houve alguns factores que tentaram impedir que o Coliseu fosse construído... um deles foi a oposição do influente Conde Burnay (que era dono de vastos terrenos na zona), que não queria que um circo fosse instalado num terreno contíguo ao seu. Outro foi a recusa dos arquitectos de prestigio José António Gaspar e Domingos Parente da Silva em fazer o projecto de edificação, possivelmente por não quererem estar associados a um circo.







A escolha final recaiu em Francisco Goullard (pai e filho engenheiros franceses), Frederico Ressano Garcia (engenheiro português), o mestre M. Gouveia Júnior e o Eng.º Xavier Cordeiro. Na fase final da construção Eduardo Machado (cenógrafo lisboeta) teve luz verde para proceder à decoração do espaço, como também ao funcionamento do palco com 40 metros de profundidade, 18 metros de largura, uma teia em madeira e maquinismos manuais. Esta obra introduziu a arquitectura em ferro, pouco utilizada na altura em Portugal, através de uma grandiosa cúpula em ferro com 25 metros vinda da Alemanha.
Esta construção em forma de eneágono, com capacidade para receber 5700 espectadores, era composta por uma vasta plateia, uma geral (em anfiteatro), duas ordens de camarotes e um promenoir que permitia que o público circulasse livremente pelo recinto. A cúpula de ferro assentava directamente nas grossas paredes do edifício  de modo a que este ficasse desafogado de colunas. Claro que o edifício foi muito elogiado pelos lisboetas porque representava uma inovação na arquitectura da cidade, comparável às maiores obras estrangeiras. Foi sempre um espaço multifacetado porque poderia exibir cinema, como também espectáculos de música, circo, canto, teatro, etc. A sua estrutura, maleabilidade e fácil adaptação aos mais diversos programas permitiu o acolhimento do animatógrafo.








António Maria dos Santos Júnior (empresário gerente do Real Coliseu de Lisboa) foi convidado para ingressar como director-gerente do Coliseu em 1897, muito por culpa do prestígio que angariou no Real Coliseu. E assim se manteve até 1920 (ano da sua morte), provando que o seu trabalho era essencial para este teatro.


No mesmo ano de 1897, uma companhia apresentou neste espaço o Cinematógrafo dos Irmãos Lumiére, seguindo-se no ano seguinte a apresentação do aparelho Biograph, uma máquina mais sofisticada da autoria de Léon Gaumont. Nos anos subsequentes diversas máquinas passaram por este espaço desde o Vitagraph, passando pelos Animatógrafo Excelsior e Royal Cosmograph. 1904 foi o ano em que entrou em cena o Royal Cronofotógrafo, um novo aparelho de projecção cinematográfica e cujas novidades eram o funcionamento automático e a projecção de quadros a cores. A partir daqui, tudo se modificaria no jogo do cinema e das salas. Dois anos depois estreava-se o Animatógrafo Pathé, que no seu programa incluía a obra de Georges Meliés intitulada A Viagem através do Impossivel que tinha a duração de 25 minutos, sendo considerada uma novidade para a época. Em 1909 estreava o Electrosonograph, uma máquina que funcionava sem a sala estar completamente escurecida.










Em 1917 através da companhia "Lusitânia Filmes", o espaço foi alugado para a exibição de fitas das grandes casas americanas e europeias. Esta companhia foi formada por um grupo de jovens com o objectivo de reunirem numa só empresa três elementos-chave: a produção, distribuição e exibição. Para além dos três principais fundadores - Celestino Soares (que idealizara este empreendimento e que se tornaria no gerente da companhia), Luís Reis Santos (director artístico) e Júlio Fernando Potes (filho de importantes lavradores alentejanos e capitalista), também se incluía neste grupo José Leitão de Barros e José Ângelo Cottinelli Telmo. Todos eles queriam dar um novo rumo à exibição cinematográfica e para isso modificaram o interior do Coliseu, instalando no centro da sala (onde se encontrava a habitual pista) um sistema de quatro ecrãs com as respectivas aparelhagens de projecção, dividindo a sala em quatro sectores, o que causou alvoroço na sociedade lisboeta. Realça-se também a presença de uma orquestra para todos os sectores, que animava os intervalos da exibição dos filmes.
No entanto, a história deste edifício encerra também alguma turbulência. A "Lusitânia Filmes" veria os seus esforços a serem gorados graças a uma teia de intrigas envolvendo os seus principais fundadores, que foram alvo de uma acção judicial que culminou na sua prisão e posterior absolvição. 







Com o aparecimento de outras salas de cinema espalhadas pela cidade, o Coliseu voltaria à função de multiusos, sendo a de cinema reduzida até à década de 1980. Na década de 1990, este espaço encerrou para obras de modernização e restauro.  A mais importante foi relativa à segurança e consistiu na substituição de toda a instalação eléctrica, incluindo um sistema de alarme contra incêndios. 
Realça-se também a lavagem e pintura de toda a fachada, como também a substituição dos portões gradeados por portas de vidros; o átrio foi aumentado por culpa do recuo da zona das bilheteiras para o espaço anteriormente ocupado pelo escritório da empresa (que foi deslocado para outro sitio); no átrio foi colocado um ascensor; o bar no 1º andar foi modernizado; na sala de espectáculos, a maior modificação foi a que incidiu na geral e na geral reservada, que deixaram de ter degraus, abrangendo todo o espaço entre a entrada central da sala e a extremidade da geral reservada, próxima do proscénio.
A estrutura das duas gerais foi alterada com o aparecimento de locais individuais em cadeiras, conforme a disposição da sala nos vários espectáculos realizados. O varandim colocado sobre a entrada central para a plateia e gerais foi suprimido e no tecto da sala foi colocado um grande globo central, rodeado por outros ao longo de duas circunferências concêntricas. Na parte alta da sala foi instalado um sistema de anteparos, destinado a melhorar as condições acústicas. Foi colocada uma ponte ligando as duas zonas da varanda mas próxima do palco, de modo a instalar o sistema de iluminação de cena. A cor que passou a predominar na sala foi o cinzento, com alguns tons de azul à mistura. Na zona do palco, houve modificações nos camarins que agora apresentam excelentes condições de higiene e comodidade.
Este espaço reabriu em 1994, continuando com a sua função de multiusos até à actualidade, visto que possui uma excelente acústica própria de grandes espectáculos.






Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978

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