A Difícil Arte de Ver Cinema no Séc. XXI




Há já algum tempo que a experiência de ir ao cinema deixou de ser mágica para mim, apesar da qualidade e da espetacularidade existentes nas atuais salas de exibição. Ok, as salas podem ser mais confortáveis (apesar de se assemelharem a caixotes); a qualidade da projeção pode ser infinitamente superior; o sistema sonoro pode ser bombástico, mas falta algo…falta a tal magia do espetáculo que encantou gerações durante décadas.
Atualmente uma sessão de cinema é dirigida ao coletivo e a experiência vivida acaba por ser extremamente turbulenta e pouco aproveitável. Não é confortável assistir a um filme e ouvir o barulho dos “ruminantes” a mastigar pipocas; não é confortável ver os “pirilampos” a invadir a sala escurecida durante a exibição do filme; não é confortável lidar com os diálogos ruidosos de muitas almas inquietas que deveriam estar silenciosas enquanto visionam o filme. Concluindo…sinto que estou numa selva sempre que vou ao cinema. 
Antigamente ir ao cinema era uma experiência prazerosa, quase inesquecível, independentemente da qualidade do filme em exibição (muitos deles eram simplesmente abomináveis). Atualmente, para além da turbulência dentro da sala, o próprio filme é uma enorme turbulência graças aos fantásticos e inacreditáveis efeitos especiais. Mas…onde está a história capaz de cativar o coração? Onde está a gargalhada produzida pela piada e humor? Onde está a lágrima que se derrama perante a dor e o sofrimento? Onde estão os sentimentos? Pois…vão aparecendo raramente.
Há muitos anos atrás, a cidade de Lisboa estava repleta de salas de cinema de referência, como o Condes, Éden, Tivoli, São Jorge, Castil, Mundial, Monumental e o seu SatéliteApolo 70, Berna, Império e o seu Estúdio, Roxy, Londres, Roma, Vox, Alvalade, Estúdio 444Caleidoscópio, Pathé, Cinearte, Europa, etc. Contudo estas salas já se encontram há muito encerradas, tendo sido substituídas por outras inseridas em centro comerciais que, embora mais confortáveis, não possuem metade da mística destes referidos espaços.
Lisboa pode gabar-se de ter tido grandes salas de cinema (estou a referir-me às suas dimensões) que, devido à sua monumentalidade, deixavam qualquer pessoa em suspenso. Estas salas conseguiam algo que as atuais salas não conseguem…convidar o público a viver a magia da 7ª arte de uma forma absoluta. Para além de exibirem filmes, estas antigas salas também exibiam outros espetáculos que deslumbravam pela grandiosidade do seu espaço. Sim…é importante referir o interior destas antigas salas de cinema. Muitas possuíam plateia, balcão e camarotes, com bilhetes a preços irrisórios que variavam entre os 12$50 e 25$00 conforme o local escolhido. Atualmente as salas parecem caixotes, sem qualquer tipo de arquitetura que chame a atenção e com preços elevadíssimos que podem ir até aos 6€ (1.200$00), o que é simplesmente criminoso. Pagar uma quantia tão elevada para não sentir a magia do cinema é crime…pelo menos para mim! Onde estão os cortinados espessos e longos que se abriam e fechavam no início e final da exibição do filme?! Onde está a magia do cinema?!
Outro pormenor interessante que diferencia as antigas salas de cinemas das atuais é a própria programação que possuíam. Noutros tempos os filmes não estreavam em todas as salas de cinema, o que conferia a cada espaço a sua importância e identidade. A época das estreias cinematográficas era uma verdadeira azáfama com intermináveis filas nas bilheteiras, sendo por vezes necessário adquirir os bilhetes com alguma antecedência. Houve casos memoráveis como as sessões esgotadas para ver A Torre do Inferno no Cinema Tivoli, o Tubarão no Cinema Éden ou até mesmo Encontros Imediatos de Terceiro Grau no Cinema Império. 
Antigamente, a nova temporada estreava filmes de qualidade que faziam longas carreiras de exibição em diversos cinemas lisboetas. Quem não se lembra do Kramer contra Kramer com treze semanas de exibição? Era uma vez na América e Musica no Coração com um ano de exibição? A última vez que se assistiu a tamanho caso de popularidade foi em 1995 com o filme O Carteiro de Pablo Neruda com mais de um ano em exibição no Cinema Mundial!
Outrora a estreia de um filme era um acontecimento importante…mesmo que fosse um clássico da Disney! E era bonito de ser ver os foyers dos cinemas enfeitados com os cartazes dos filmes…convidavam as pessoas a entrar no mundo mágico do cinema. Pelo menos para mim é uma das mais vívidas memórias da minha infância…passear por Lisboa e contemplar com espanto esses enormes cartazes. Onde estão esses cartazes atualmente?!
As antigas sessões de cinema eram bastante concorridas (numa época onde o vídeo, dvd e blu-ray eram conceitos desconhecidos) possibilitando assim a socialização, com as pessoas a conversarem animadamente com o vendedor de bilhetes…o que não acontece atualmente. Assim que se entrava para a sala, o espectador recebia um programa grátis onde eram explanados alguns dados sobre o filme em exibição, como também comentários críticos sobre o mesmo. Atualmente o espectador vislumbra alguma informação sobre os filmes em pequenos folhetos, facilmente esquecidos. A sessão iniciava-se com um magazine de atualidades, desenhos animados e/ou documentários, como também a apresentação das 
próximas estreias cinematográficas. Atualmente o que se vê? Um enorme desfile de anúncios publicitários sobre telemóveis…está tudo relacionado, certo? Antigamente, uma sessão de cinema poderia ter dois intervalos e estes serviam para reforçar a interação entre as pessoas, especialmente quando elas visitavam o bar para tecer comentários sobre os filmes. Atualmente uma sessão só tem um intervalo, que serve exclusivamente para as pessoas enviarem mensagens ou verem o Facebook pelo telemóvel.

Onde está a magia do cinema?! Como posso redescobrir aquele sentimento fervoroso que outrora tive pela 7ª arte?! Quando é que posso voltar a ver bom cinema?!

Tantas perguntas para tão parcas respostas.


6 comentários:

Luis Faria disse...

Raramente me dou ao trabalho de ler textos desta dimensão no computador talvez porque já sou um pouco velho, mas desta vez abri uma exceção e porque o tema me interessa muito li-o de fio a pavio com grande prazer. Reflete quase tudo o que eu próprio penso da evolução da exibição cinematográfica em Lisboa ao longo das duas últimas décadas e está muito bem escrito evidenciando um profundo conhecimento do panorama cinematográfico passado raro em quem tenha menos de 55 anos. Parabéns

Cristina Tomé disse...

Obrigada, Luís pelo seu comentário positivo. É realmente a minha opinião e acredite...construir este blogue tem sido uma enorme descoberta. Peço-lhe que vote no meu texto no blogue Cinema Notebook, para ver se tenho hipotese de ganhar alguma coisa.

José Leite disse...

Sendo seguidor do seu blog, deparei-me com mais este artigo muito bem escrito.

Cheio de propriedade e lembrando o que significava «Vamos ao cinema! ». Na maioria das vezes um acontecimento familiar.

Faltou-lhe referir os «arrumadores» com os seus programas e lanternas. Quando alguém chegava fora de horas ... «Que chatice!!». Mas fazia parte do espectáculo.
E a música ambiente de piano e orquestra durante os intervalos nos «foyers» e na sala de projecção. ...

Quanto aos cinemas modernos, ou melhor, salas de projecção de filmes, pouco conheço pois desde que fechou o Cinema "São Jorge", minha sala favorita, depois do encerramento do "Monumental", nunca mais fui... até porque não gosto de pipocas ... :)

Pode contar com o meu voto, porque blogs como este, que relembram aos mais velhos, e divulgam aos mais novos o passado - neste caso cinematográfico - em Portugal, fazem falta e existem muito pouco infelizmente.

Os meus parabéns pelo trabalho que tem vindo a desenvolver.

Os meus cumprimentos

José Leite

José Leite disse...

Cristina Tomé

Foi com muito prazer que li o artigo em questão, muito bem escrito.

Um notável «passeio» pelo «Ir ao cinema» há uns bons anos atrás.

Tratava-se de um acontecimento familiar, muitas vezes semanal ou mensal. E acessível, pois desde a plateia ao 2º balcão preços para todas as carteiras, coisa que hoje em dia ...

A Cristina esqueceu de referir três pormenores:
O "Arrumador" com os seus programas, para ler antes do começo do filme, com sua lanterna, para não falar no tilintar dos bolsos cheios de moedas das gorjetas. Quando alguém chegava atrasado lá vinha o foco de luz e os comentários: «que chatice!!»
Outro pormenor: as músicas suaves em piano e orquestra quase sempre de filmes célebres, ouvidas nos intervalos, tanto na sala como nos «foyers».
E por último: os panos de cena publicitários que eram exibidos no palco nos intervalos, quase sempre da responsabilidade da empresa publicitária "Belarte".

Os meus parabéns pelo trabalho que tem vindo a desenvolver, não deixando esquecer o que de bom este país teve.

Tem o meu voto!!

Os meus cumprimentos

José Leite

Cristina Tomé disse...

Caro José Leite

Agradeço-lhe as palavras de incentivo e entusiasmo pelo meu blogue...é importante saber o feedback das pessoas, saber que estou a contribuir para a redescoberta de velhas glórias arquitectónicas, que marcaram a vida de tanta gente.
Também é importante referir o seu enorme contributo para o mesmo através do seu fantástico blogue "Restos de Colecção", uma autêntica biblioteca de imagens que têm servido de suporte aos meus textos.
Por isso, agradeço-lhe a ajuda na construção do meu blogue.

Cumprimentos

José Leite disse...

Cristina Tomé

Peço desculpa pelos dois comentários que foram publicados, mas o Blogger deu como erro a minha primeira tentativa de publicação e à segunda ... foi de vez ... pensava eu!!. Mas, e já agora um completa o outro.

Pelo que apareceram os dois publicados, redundantemente. Mas julgo que o que interessa é a essência e intenção.

Se o meu blog «tem servido de suporte aos seus textos» a mim não me incomoda. O que conta é a sua intenção, interesse e trabalho. Eu não inventei nada, também vou buscar a fontes e outros blogs que igualmente têm o seu valor.

Exemplo disso foi o seu blog um dia ter sido precioso para a minha pesquisa ... pois! Nós é que por vezes não damos valor ao que fazemos.

Um dia apareceu na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian umas fotos dum teatro que eu durante 3 semanas não consegui identificar. Mas as fotos eram tão bonitas que mereciam o meu tempo. Procurei, procurei e no seu precioso blog encontrei!! Era a sala do Teatro do Ginásio.

Como vê ajudamo-nos uns aos outros, nesta «guerra», e nem damos conta.

Sim! porque achar fotos, textos, histórias, etc de tudo o que respeite a antes de 1974 é uma verdadeira «guerra» !!!.

Os meus cumprimentos e continuação do bom trabalho.

José Leite

 
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