Europa: o fim inevitável


O Cinema Europa foi um dos edifícios mais emblemáticos do bairro de Campo de Ourique em Lisboa (Rua Francisco Metrass, nº 28).
Em meados de 1929, o proprietário José Dionisio Nobre resolveu construir um cinema num terreno que possuía situado na Rua Almeida e Sousa, nº 35 com a Rua Francisco Metrass. O nome original deste cinema era "Astória".
Inaugurado na década de 1930, foi projectado pelo Arqt.º Raul Martins. A primeira versão deste cinema nada tinha a ver com a que mais nos lembramos. Esta versão Art Deco tinha uma mistura de clássico e moderno que a tornava diferente dos outros cinemas, não só pelo seu tamanho como também pela imponente arquitectura da fachada e dos interiores. 
O facto deste espaço se situar numa confluência de duas ruas fez com que existisse um inteligente tratamento da sua fachada, o que contribuiu para a quebra da monotonia geral do edifício e da austeridade das suas linhas.
A sua sala, traçada em forma trapezoidal e dotada de tectos de masseira pintados em azul e prata, que contrastavam com os tons das paredes em verde mate e ouro, possuía uma boa acústica que se exigia dos espaços que aderiam ao cinema sonoro. A boa visibilidade também estava incluída no desenho do recinto, que se desenvolvia por três pisos, sendo o primeiro a plateia; o segundo correspondia ao primeiro balcão e seis camarotes de cada lado, como também o bar; e por fim, o terceiro piso que correspondia ao segundo balcão e onde se encontrava a cabine. Ao todo esta sala conseguia acomodar 878 pessoas.
Este edifício foi projectado de modo a poder ser ampliado, o que aconteceu em 1936 quando sofreu reestruturações, com risco do Arqt.º João Carlos Silva, quer na fachada como também no interior, vendo reduzida a lotação de modo a acomodar melhor o público.


 




Em 1958, este recinto foi demolido para dar lugar a uma sala maior, para coincidir com os grandes cinemas erigidos nessa década. O projecto do novo Cinema Europa foi da autoria do Arqt.º Antero Ferreira, tendo a sua fachada incluído uma escultura em alto-relevo da autoria do escultor Euclides Vaz. Em 1965 a sala seria melhorada, segundo projecto do Arqt.º Rodrigues Lima, com modificações significativas que se estenderam até ao bar, como também a importância atribuída ao átrio com um painel de azulejos de Fred Kradolfer, expressamente construído para o local.
Funcionou como sala de cinema até 1981 e integrou o Inventário da Arquitectura Moderna Portuguesa do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR, actualmente designado por IGESPAR). O Europa funcionou também durante os anos 80 como estúdio de televisão.
Contudo, só duas décadas mais tarde o espaço foi desafectado dessa função. Aconteceu em 2004, na sequência de um pedido do proprietário - Sociedade Administrativa de Cinemas, Lda - que se propunha construir no local um novo edifício, dividido entre espaços de comércio e apartamentos de luxo.




 


Na tentativa de salvar este cinema foi criado um grupo de cidadãos: SOS Cinema Europa. Foi um movimento informal de cidadãos, maioritariamente moradores no bairro de Campo de Ourique, que nasceu no início de 2005. Este movimento lutou pela criação de um espaço cultural público (biblioteca multimédia, auditório e sala para actividades diversas) no piso térreo do novo edifício a ser construído no local onde existiu o antigo cinema “Europa”.Em 2006, 25 anos depois do seu encerramento, este cinema beneficiou de um projecto de reabilitação que servia para preservar a sua função como cineteatro, destinado aos mais jovens, com uma aposta essencialmente centrada no cinema de animação e no teatro infantil. 




Contudo, foi uma aposta perdida visto que o edificio foi demolido em 2010.
Mais uma pérola da arquitectura a desaparecer ingloriamente da cidade de Lisboa, para dar lugar a mais um condominio de luxo provavelmente...mais uma vez o capitalismo em alta e a salvaguarda da arquitectura em baixa.


Fonte: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2010/01/cinema-europa-1930-1957.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/11/europa-1930s-1981.html
http://restosdecoleccao.blogspot.com/2011/10/cinema-europa.html
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINEMA+EUROPA_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b

5 comentários:

Polo disse...

Para quando uma reportagem sobre os Cinemas Alfas?

E já agora falar-se dos Cine-Oriente, Royal, Max, Caleidoscópio, Cine Restelo entre outros.

Obrigado.

Miguel disse...

Pena. Muita pena tenho eu que quase todos acabem assim. Continuemos a ter esperança enquanto o Império e o Odeon se forem mantendo em pé. Pelo menos o 1º já foi classificado como imóvel de interesse o que em principio o deve salvar do mesmo destino, mas neste país nunca se sabe.

Waveygirl disse...

Olá Polo

Eu já falei, de uma forma generalzada, do Cine Oriente e Royal num texto sobre os cinemas piolho que proliferaram em Lisboa em tempos idos. Relativamente aos restantes, isso será feito com calma porque demoro sempre algum tempo a recolher informação sobre estas salas.

Abraço,
Waveygirl

Dreamaster disse...

Porra tou chocado. Não sabia. Grrrrr Tou mesmo zangado.

E depois vêm estes politicos de merda falar de Cultura. Estão a mata-la aos poucos.

Lisboa está a ficar sem salas d espectaculos. Uma vergonha. Até hoje não temos tido um presidente da camara de Lisboa q goste verdadeiramente da cidade.

Continua o excelente trabalho menina.

Bejus
D.

Luis Faria disse...

Sendo nascido e criado em Alcântara numa época em q só havia 2 canais de TV a PB é vidente que conheci e frequentei todos os cinemas da zona e arredores desde o Stadiun em Algés, o Miraflores,o Restelo um do qual não me recordo o nome q fica onde agora é o CCB O Cine Portugal na Ajuda o Promotora no Calvário o Eden Cinema no Largo de Alcântara, o Cinearte em Santos, o Paris na Estrela, o Europa em Campo de Ourique um outro do qual não recordo o nome em Campolide e muitos muitos outros... E que saudades. Belo trabalho, parabéns e continue

 
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