Os "Piolhos": Éden Cinema em Alcântara, Cine Oriente, Cine Texas e Cine Estrela


Há uns tópicos atrás, escrevi sobre algumas salas de cinema de Lisboa que eram justamente chamadas de "piolhos," porque de facto eram autênticos piolhos. Eram salas sem qualquer tipo de estrutura arquitectónica interessante e com falta de higiene,  direccionadas ao extracto mais pobre da sociedade lisboeta. Já falei do Salão Lisboa e do Salão Portugal e agora apresento-vos mais três piolhos de Lisboa: o Éden Cinema em Alcântara, Cine Texas e Cine Oriente.

No início do século XX, a rede de transportes públicos em Lisboa vinha a evoluir significativamente, muito por causa do aparecimento da tracção eléctrica em 1901. Contudo, esta evolução não foi muito marcante na escolha da localização das novas salas de projecção, pois elas continuavam a aparecer em zonas de maior densidade populacional, nomeadamente no eixo central do Rossio-Chiado. No entanto, foram aparecendo diversas salas em localizações afastadas do centro, como Belém, Alcântara, Ajuda, Poço do Bispo e Graça, de modo a permitir que estas zonas também tivessem acesso a este divertimento. Estas áreas eram industriais, situavam-se longe do centro da cidade e a sua população era operária. Estes cinemas eram explorados pelos mesmos empresários que exploravam as salas mais centrais, fazendo deles "cinemas de reprise".

O Éden Cinema abriu portas ao público em 1921 e situava-se na Rua do Alvito, nº 4 em Alcântara, não tendo qualquer tipo de relação com o famoso Éden nos Restauradores, como se pode facilmente ver pela fotografia. Como programação de estreia foi exibido o filme Os Fidalgos da Casa Mourisca, produzido pela Invicta Film.
Este cinema piolho servia o público do bairro industrial e fabril deste bairro, muito antes da zona se tornar centro de atracção nocturna com os seus bares e discotecas. A sua lotação era de 568 lugares distribuídos por 219 lugares na 1ª Plateia; 90 na 2ª Plateia; 168 no 1º Balcão e 91 no 2º Balcão. A sua exploração esteve durante muito tempo confiada à empresa J. Castello Lopes e Luciano Marques foi o seu gerente, representando a firma "Empresa Eden Cinema, Lda." que suportou este espaço.
No inicio da década de 1950, este cinema sofreria importantes obras de remodelação, principalmente na plateia, o que fez reduzir a sua lotação para 327 lugares.
O Éden encerrou portas em 1971 e já não existe,  assim como as fábricas que se mudaram para zonas fora do centro da cidade.














O Cine Oriente abriu as suas portas ao público em 1935 na Avª General Roçadas na Penha de França. A sua história começa em 1928 com António Joaquim Gonçalves, que pretendia adaptar para cinema um armazém que possuía no Caminho de Baixo na Penha. O projecto seria da responsabilidade do construtor civil João Tomás de Sousa. A obra ficaria concluída em 1930.
Era um típico cinema de bairro histórico, modesto mas bem construído, suportado por uma estrutura de aço e com o tecto forrado a chapa de ferro. As cadeiras eram de madeira e a sua  lotação era de 496 lugares distribuídos por 132 fauteuils, 168 nos balcões e 196 de geral.
Em 1934, tendo Alfredo Bernardo Lucas como empresário e proprietário do terreno, seriam realizadas obras que tornariam este espaço mais acolhedor e mais cómodo para o seu novo público. No ano seguinte este cinema passou a ter como arrendatário António Ferrão Lopes, (empresário cinematográfico ligado à produção, distribuição e exibição de filmes), posição que ocupou até 1977, ano em que este espaço encerrou devido à falta de público originada pela febre dos centros comerciais. 
No entanto, ainda se tentou dar uma nova vida a este espaço no mesmo ano com a inauguração do NovoCine, mas a tentativa saiu gorada. O edifício original foi demolido dando lugar a uma sucursal dos CTT.







Cine Texas ficava situado na Rua de São José na Charneca e funcionava num barracão de zinco com sessões esgotadas, fazendo as delícias de quem morava nos bairros das Galinheiras e da Ameixoeira. Curiosa era a forma dos proprietários fazerem a divulgação das sessões: uma velha carrinha com um megafone circulava pelas ruas do bairro colmatando a falta dos grandes cartazes e luzes de néon na simples fachada.
Durante a sua curta existência até ao inicio da década de 1980, o Texas foi um mero "cinema de reprise", mas fez sonhar muita gente numa freguesia pobre e com poucos recursos, com os seus bilhetes acessíveis e reposições dos grandes sucessos da época, e encarnou a verdadeira essência do cinema piolho.
Muitas histórias se contam sobre este espaço improvisado, nomeadamente de filmes que ficavam com a exibição a meio porque a lâmpada se fundia ou porque a fita se cortava; de lutas que se iniciavam durante a exibição de filmes, obrigando a policia a intervir.




O Cine Estrela abriu as portas ao público da Charneca do Lumiar em 1968 e era mais um dos  conhecidos "piolhos" existentes em Lisboa. Localizado no limite norte da cidade, acabou por encerrar portas em 1977, sem ver o asfalto chegar às estradas da zona e muito menos a sua reabilitação. O edifício do Cine Estrela permanece no local a definhar com a passagem do tempo.







Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
SALGUEIRO, Teresa B., Documentos para o Ensino – Dos Animatógrafos ao Cinebolso, 89 anos de cinema em Lisboa, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, Finisterra, XX, 1985
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/12/oriente-1959-1970.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/12/eden-cinema-alcantara-1959-1971.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/11/texas-1960-1970.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.pt/2009/12/estrela-1968-1977.html
http://citizengrave.blogspot.pt/search/label/Cine%20Texas
http://pulanito.blogspot.pt/2007/03/cine-texas.html
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINE+ORIENTE_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINE+TEXAS_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b
http://cidadanialx.blogspot.com/2007/10/cinemas-mais-18.html;
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/ContentPage.aspx?ID=9521e67c8c4f0001e240&Pos=1&Tipo=PCD

2 comentários:

Luis Faria disse...

O Eden Cinema (ou piolho) era e ainda lá está no largo de Alcântara. Foi lá que vi a minha primeira sessão de cinema com apenas 7 anos: uma sessão dupla (habitual nos cinemas de reprise) composta por A Fera da Flecha e Khartoum: dois filmes que actualmente possuo em DVD e que me foram bem dificeis de arranjar :)

José Monteiro disse...

Boas

Estou a fazer um levantamento, se assim se pode chamar, das salas de cinemas extintas em Lisboa. Com as mesma coloco-as nos artigos pedidos na Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Artigos_pedidos/Arte_e_entretenimento#Arquitetura_e_urbanismo contudo ainda me faltam muitas.

Será que me pode ajudar?

Muito obrigado

José Monteiro

 
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