Real Coliseu de Lisboa: palco da estreia do cinema em Portugal


No final do séc. XIX, Lisboa estava a expandir-se com a construção da Avenida da Liberdade, fazendo com que surgissem os clubes, as lojas de roupas e outros produtos de luxo, grandes armazéns e cafés. 
Lisboa não se cingia somente à Baixa e modernizou-se com a construção de avenidas, ruas e passeios, como também com o arranjo de jardins e o aparecimento de novos edifícios públicos como os mercados, tribunais, teatros e escolas. Foram também criados serviços públicos como a recolha do lixo, os esgotos, água canalizada, iluminação pública, policiamento e bombeiros nas ruas, como também aparecem os primeiros transportes públicos colectivos. A vida na cidade tornou-se mais cómoda, segura e saudável.



No entanto, os lisboetas andavam aborrecidos com a repetição de actividades de lazer como as produções teatrais; os bailes nas academias recreativas; os bailaricos campestres no Jardim Zoológico; as estudantinas; a Feira de Alcântara; os festejos de Carnaval e dos Santos Populares. Já os lisboetas economicamente mais afortunados assistiam ao fogo de artificio, ao desfile do regimento, às touradas, às festas e operetas.
Em 1894, os lisboetas tiveram a oportunidade conhecer a projecção de fotografias através de cicloramas, dioramas, as vistas estereoscopias e, mais tarde, com a lanterna mágica. No final do mesmo ano, um fotógrafo alemão chamado Carlos Eisenlohr inaugurou uma exposição intitulada Exposição Imperial nas lojas do Avenida Palace Hotel em Lisboa, onde apresentou a grande novidade chamada Fotografia Viva, que projectou imagens de acções (como um cavalo a galopar) contidas em discos de diâmetro reduzido que produziam imagens de curtíssima duração.
O nascimento do cinema em Paris em 1895 (pelas mãos dos Irmãos Lumiére) fez com que outros países também quisessem viver essa aventura. Portugal não era excepção e nada melhor que trazer o cinema à capital. Isso aconteceu em 1896 com o anúncio da estreia do Animatógrafo ou a Fotografia Viva, tendo se criado expectativa em torno deste evento com sessões a multiplicarem-se que nem pãozinhos quentes. Estas sessões exibiam pequenos filmes de 30 metros designados de Quadros, que recolhiam imagens da capital e arredores, tradições e festas nacionais sendo o mais bem sucedido a chegada do expresso à Estação de Calais vindo de Paris. 
Foi nesta altura que foi realizado o primeiro documentário português da autoria de Henry Short, funcionário da empresa do produtor inglês Robert Paul. O quadro designava-se de A Boca do Inferno, sobre o local com o mesmo nome em Cascais. O sucesso deste pequeno filme permitiu a feitura de outros quadros de um modo sucessivo, alcançando todos uma enorme adesão do público. Tudo isto graças às operações de divulgação com o anúncio frequente de quadros novos através das mais modernas formas de reclame que preservavam o estatuto de curiosidade que o animatógrafo ganhara.
O sucesso desta nova experiência não se resumiu somente a Lisboa tendo chegado ao Porto, embora a uma escala menor. Os portugueses foram muito receptivos a este novo acontecimento, levando os distribuidores a adoptarem um esquema rentável: os filmes eram anunciados com um tempo de exibição limitado, forçando a afluência do público que não queria perder por nada estas sessões. E assim elas multiplicavam-se...
O primeiro recinto que estreou a emocionante experiência do cinema em Portugal foi o Real Coliseu de Lisboa, que se localizava na Rua da Palma no Intendente. Inaugurado em 1887, este espaço foi também o primeiro parque de diversões lisboeta, antecessor da saudosa Feira Popular.






Os responsáveis por tal evento foram Robert Paul e o empresário António Santos Júnior (gerente deste espaço) que trouxeram propositadamente do Circo Parish de Madrid o projeccionista Erwin Rousby (considerado como o introdutor do cinema em Portugal) que com a ajuda de Manuel Veiga (fotógrafo conhecedor de mecânica e electricidade) prepararam o evento.
A estreia do animatógrafo neste espaço (um "teatro-circo" multi-funcional que servia para inúmeras actividades como a ópera cómica, circo e espectáculos equestres) foi tão avassaladora que no mesmo recinto estabeleceu-se o Cinema Colossal, que funcionava com a tela de projecção no palco principal do Coliseu.





A máquina que apresentou esta experiência aos lisboetas não foi o Cinematógrafo dos Irmãos Lumiére, mas sim o Theatographo inventado por Robert Paul (electricista e fabricante de instrumentos ópticos, pioneiro da indústria cinematográfica inglesa), uma máquina que projectava por detrás da tela onde apareciam imagens de tamanho natural que duravam aproximadamente um minuto.



Os filmes que Rousby exibia eram pertencentes à casa produtora de Robert Paul e títulos como Bailes Parisienses, A Ponte Nova em Paris, O Comboio e a Dança Serpentina foram transmitidos para gáudio dos lisboetas. 




Claro que este estado de encantamento e sucesso não durou muito tempo porque este espaço foi perdendo charme graças à abertura de novas salas melhor equipadas e com a construção do novel Coliseu dos Recreios. O facto de ser um barracão desprovido de comodidade com paredes de madeira e cobertura assente em pilares de ferro que não lhe conferiam o aspecto que o fizesse distinguir de outros recintos, como também a sua localização numa zona pouco central (Chiado, Rossio e Cais de Sodré eram as zonas mais habitacionais de Lisboa nos finais do século XIX) também contribuíram para o seu encerramento em 1929, sendo posteriormente demolido. Actualmente funciona no local uma garagem chamada Auto Lis, o que não denuncia a importância histórica que tivera anteriormente. 




Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
SALGUEIRO, Teresa B., Documentos para o Ensino – Dos Animatógrafos ao Cinebolso, 89 anos de cinema em Lisboa, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, Finisterra, XX, 1985
RIBEIRO, M. Félix, As primeiras sessões de cinema em Portugal, Seminário Se7e, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2012/11/cinematografos-e-animatografos.html
- http://revelarlx.cm-lisboa.pt/fotos/gca/1210255044carroamer_g.jpg
- http://4.bp.blogspot.com/-Msg9pG6aqqc/ThtsoafpHWI/AAAAAAAALAk/799P3mqScAw/s1600/image007.jpg
http://opsis.fl.ul.pt/Infographic/Index
- http://citizengrave.blogspot.pt/2012/11/joshua-benoliel-teatros-e-cinemas.html
- http://gazetademiraflores.blogspot.pt/2012/03/manuel-maria-da-costa-veiga-pioneiro-do.html

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