Lys vs Roxy


Hoje escrevo-vos sobre uma sala de cinema que ficava situada na Avenida Almirante Reis, nº 20 e que, como tantas outras, já desapareceu. Estou a falar-vos do Cinema Roxy, reencarnação do antigo Cinema Lys.


Construído num local estratégico, onde convergiam diversos bairros vizinhos e populosos como a Graça, os Anjos e Almirante Reis, este cinema teve a sua inauguração a 11 de Dezembro de 1930 e o seu dono era o Dr. Abraão de Carvalho (homem de diversos haveres e então funcionário superior do Ministério dos Negócios Estrangeiros),  sendo o espaço gerido por Aníbal Contreiras (homem ligado aos negócios cinematográficos no seus variados sectores e fundador da Lisboa Filme).
O projecto datado de 1929 da autoria do Eng.º Machado Rodrigues, mostrava um edifício em forma  de um navio com os dois corpos laterais paralelos às ruas, terminando numa proa onde as fachadas laterais convergiam devido a um corpo circular que as animava. O seu interior era constituído por um balcão que se prolongava até ao palco e não existiam corredores e outras dependências de teatro que pudessem dificultar a evacuação do recinto através das várias portas que conduziam à rua. Apesar de obedecer às normas de segurança exigidas pela Câmara Municipal, este projecto foi vetado pela mesma devido à simplificação de todo o edifício, com a fachada e suas ornamentações a não corresponderem à importância do lugar onde seria edificado.
Para refutar essas objecções, foi contratado o Arq.º Tertuliano Marques (responsável pelo projecto do Chiado Terrasse) que teve como tarefa redesenhar a fachada do cinema, que passa a ser dotada de uma maior carga decorativa. O projecto foi entregue à apreciação da autarquia, sendo aprovado sem hesitação. No entanto, com as obras em avançado estado de construção, o promotor voltou a pedir uma nova autorização para alterar a fachada, propondo um desenho de tal modo simplificado que se aproximava do projecto original que tinha sido rejeitado. A autarquia, apesar da opinião divergente, acabou por autorizar a alteração da fachada, que acabou por ficar com um aspecto algo inacabado.
Apesar de toda a turbulência inicial, este cinema caracterizou-se por uma afluência nunca antes vista, quer pela sua dimensão, quer por ser um cinema de “reprise”, para onde eram levados os maiores êxitos, imediatamente após a sua estreia, tudo graças a uma gerência dinâmica.













Quando abriu transmitiu filmes como: O Dominó Preto, uma comédia alemã da UFA, interpretada por Harry Liedke, o drama Águas de Tormenta, a farsa Caixeiro Viajante, o filme animado português Os Camelos e um documentário nacional.
Em 1931 Joaquim Pedro dos Santos (funcionário da administração do jornal O Século) passa a gerir este espaço, conseguindo fazer do Lys um cinema concorrido e com um público fiel.



Como tantos outros cinemas, também este espaço passou por importantes obras interiores, passando para cinema de estreia e adoptando o nome de Cinema Roxy.
Esta nova fase teve a sua inauguração a 26 de Junho de 1973 com o filme Alfredo, Alfredo, de Pietro Germi, com uma lotação total de 553 lugares (plateia - 331; balcão - 222) e tinha 3 matinés e uma sessão nocturna.



Pedro Emauz Silva foi o arquitecto-decorador encarregado das remodelações, mas o Roxy nunca atingiu a popularidade do anterior Lys.
Ao longo dos anos, a sua programação foi decaindo, tendo encerrado as suas portas no início de Abril de 1988, com o filme Noite Infernal.
Como tantas outras salas que apareceram por Lisboa, esta é mais uma que fica na memória dos lisboetas mas que não sobreviveu à modernice actual. Actualmente, é um edifício que alberga escritórios e uma sapataria.





Fonte:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2013/06/cinema-lys.html
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2010/02/lys-1930-1988.html

2 comentários:

César Ramos disse...

Post espectacular!
Como dizem que 'os cinemas também se abatem', assume-se a ideia de que se tratam de 'Seres' com vida, morte,...e alma!

Lembro-me mais deles, do que dos filmes que lá vi!... eram as companhias, o convívio, os conhecimentos que se adquiriam... tudo isso, cristaliza-se e cria um perispirito - intermediário entre a matéria e o espírito - cuja aura, fica agradecida a esta grande evocação do Lys, e do crismado Roxy!

Anónimo disse...

Gostei, em especial tendo eu crescido nesse cinema já que o meu avô era lá projeccionista. Já não sou do tempo dos camarotes, mais ainda me lembro da vista do alto do terraço e da novidade que foi a projecção com lâmpada de xenon, em substituição de uma de arco com eléctrodos de carvão.
E as películas ganham outro interesse quando são vistas através das janelas corta-fogo. Parabéns pelo post.

 
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