Na Rua da Mouraria, entre as Escadinhas da Saúde e a Rua das Fontaínhas de São Lourenço, encontra-se um edifício cuja presença urbana não passa despercebida. O antigo Salão Lisboa, situado nos números 2 a 6 da Rua da Mouraria, integra a memória dos espaços de espetáculo que, durante décadas, marcaram a vida cultural e social dos bairros lisboetas. Conhecido como “Cinema Piolho”, este edifício modesto pertencia à "Empresa Salão de Lisboa, Lda.", de Henrique O’Donnell (funcionário da Companhia dos Tabacos) e Victor Cunha Rosa (empresário da exploração cinematográfica, que também explorou o antigo Paris Cinema).
Segundo a informação disponibilizada pelo SIPA, o edifício apresenta uma planta rectangular, com volumes articulados e coberturas diferenciadas, características que lhe conferem uma imagem arquitectónica própria. A fachada principal organiza-se em três panos, sendo os laterais mais salientes, definidos por cunhais arredondados. Esta composição dá ao conjunto um ritmo visual particular, distinguindo-o da malha urbana envolvente.
No piso térreo, destaca-se a porta central, ladeada por duas vitrines de vão rectangular, elementos que sugerem uma relação direta com a rua e com o movimento quotidiano da Mouraria. No piso superior, os corpos laterais são rasgados por pequenas janelas, enquanto o corpo central apresenta três aberturas, reforçando a simetria e a verticalidade discreta da fachada. Um ático oculta a cobertura em lusalite de três águas, coroado por uma segunda cobertura de duas águas, solução que revela a complexidade volumétrica do edifício.
Outro aspeto curioso encontra-se nos muros laterais, coroados por uma espécie de pináculos e rasgados por uma ampla porta. Estes muros foram construídos junto a uma elevação, acompanhando o movimento natural do terreno, o que reforça a forma como o edifício se adapta à topografia acidentada desta zona antiga de Lisboa.
Este antigo cinema encontra-se incluído na Zona de Proteção do Castelo de São Jorge e restos das cercas de Lisboa, bem como na Zona de Proteção da Capela de Nossa Senhora da Saúde. Esta localização reforça a sua relevância urbana, não apenas como edifício isolado, mas como parte de uma paisagem histórica profundamente marcada pela memória da cidade.
A história deste antigo cinema remonta aos primeiros anos de afirmação do cinema enquanto forma de espetáculo urbano em Lisboa. Em 1915, Tomás de Lemos de Serra e Moura obteve licença para a construção de um animatógrafo, designação então utilizada para estes espaços dedicados à projeção cinematográfica.
O termo de responsabilidade da obra foi assinado pelo construtor Artur José Nobre, ficando assim registado o início formal de um edifício pensado para acolher uma das grandes novidades culturais do início do século XX: o cinema. Numa época em que a experiência cinematográfica começava a conquistar públicos cada vez mais vastos, estes salões assumiam um papel fundamental na vida cultural da cidade, aproximando o espetáculo das ruas, dos bairros e das populações.
A inauguração do animatógrafo ocorreu em 1916, já sob a propriedade da Empresa do Salão de Lisboa, Lda. Entre os seus sócios encontravam-se Henrique O’Donnell, funcionário da Companhia dos Tabacos e irmão de outro cinematografista, Leopoldo O’Donnell, e Vítor da Cunha Rosa. Estes nomes ajudam a perceber que o Salão Lisboa não surgiu isoladamente, mas integrado numa rede de empresários, construtores e entusiastas que contribuíram para a expansão do cinema em Lisboa.
O facto de Henrique O’Donnell estar ligado a uma família com presença no meio cinematográfico revela também como, nesta fase inicial, o cinema era ainda um campo em construção, alimentado por iniciativas privadas, relações pessoais e espírito empreendedor. Antes da consolidação das grandes salas de cinema, foram estes animatógrafos e salões que levaram as imagens em movimento a diferentes zonas da cidade, criando novos hábitos de lazer e novas formas de sociabilidade.
De cariz popular, servindo uma zona tão característica como aquela onde se situa, este cinema tinha sessões às quintas-feiras, sábados e domingos. O seu interior compunha-se de plateia e balcão e tinha a capacidade para acomodar 510 espectadores.
O público era essencialmente jovem, o que fazia com que os filmes de acção fossem o essencial da sua programação.
Logo em 1919, poucos anos após a sua inauguração, foram substituídas algumas peças do madeiramento da cobertura, bem como parte da vedação de madeira, no ângulo entre a rua e as Escadinhas da Saúde, por um muro de alvenaria.
Em 1927, realizaram-se limpezas e reparações interiores e exteriores, revelando a necessidade de manutenção contínua do espaço.
Em finais de 1928, iniciaram-se as obras de reparação e embelezamento, como forma de corresponder às exigências do público e ao aparecimento de novas salas. A Inspecção Geral dos Espectáculo autorizou essas obras, mas determinou a inversão das características da sala, nomeadamente com a mudança da cabine de projecção que ficaria situada no lado oposto à saída principal que dava para a Rua da Mouraria, como também foram suprimidas as colunas que suportavam o piso do balcão, o que originou a construção de instalações sanitárias nesse mesmo balcão.
Foi em 1932 que se introduziram novas alterações, principalmente na fachada. Sob a alçada do projecto do Arqº António José Pedroso, este edifício adoptou a fachada que mantém até hoje. De modo a valorizar o imóvel, os donos resolveram substituir a cobertura de madeira existente desde o inicio por uma estrutura de ferro, coberto de chapas de fibro-cimento. Os antigos tapumes foram substituídos por fachadas em tijolo, a fachada principal foi reconstruída e reforçada em alvenaria, e as fachadas laterais passaram a ser em tijolo maciço. O gaveto junto às Escadinhas da Saúde deixou de formar um ângulo recto, ganhando uma fachada curva, solução que terá contribuído para uma melhor integração do edifício no terreno e na envolvente urbana. No interior, as alterações foram igualmente expressivas: demoliram-se escadas, alargaram-se galerias, construiu-se um bar junto à plateia, abriu-se um guichet para a bilheteira, ampliou-se a cabina de projecção e criou-se um compartimento próprio para enrolar as fitas. Foram ainda reorganizadas zonas de apoio, como retretes, mictórios, toilette e sala de fumo. A instalação de luz eléctrica e a colocação de letreiros luminosos nas saídas e escadas revelam a preocupação com a modernização e segurança do espaço.
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| Recriação do interior deste cinema, feita em IA. |
Em 1936, uma nova obra alterou profundamente a estrutura do edifício: a cobertura de madeira foi substituída por uma estrutura de ferro, coberta por chapa ondulada de fibrocimento, conhecida como lusalite. Para esta intervenção, foi necessário elevar as paredes da fachada e criar pilares de cimento armado, que passaram também a integrar a decoração da sala. Seguiram-se, nas décadas seguintes, várias campanhas de pinturas, limpezas e reparações, registadas em 1938, 1943, 1952 e 1959, esta última motivada por infiltrações de águas pluviais na cobertura.
Em 1962 foi recusada uma licença para remodelação do edifício. O indeferimento deveu-se ao facto de o imóvel se encontrar integrado no plano de remodelações da Baixa, numa área abrangida pela primeira fase de expropriações. Na época, já tinham sido iniciadas negociações para a aquisição do edifício pela Câmara Municipal de Lisboa.
Já em 1971, pouco antes do encerramento da sua actividade cinematográfica, o Salão Lisboa foi alvo de obras de limpeza e beneficiação geral, incluindo a colocação de uma pala metálica sem licença. Este detalhe final parece simbolizar o destino de muitas antigas salas de cinema: edifícios sucessivamente adaptados, remendados e transformados, tentando responder a novas necessidades enquanto a sua função original se aproximava do fim.
Apesar da sua importância enquanto antigo espaço de exibição cinematográfica, o Salão Lisboa cessou a actividade de exploração cinematográfica em 1972. Nesse mesmo ano, em dezembro, o edifício foi alugado a um armazém de revenda de fazendas, perdendo assim a sua ligação direta ao cinema e ao espetáculo.
A consciência do seu valor patrimonial surgiria alguns anos depois. Em 1 de outubro de 1980, foi apresentada uma proposta de classificação do edifício, seguida, a 22 de outubro, pelo despacho de abertura do processo de classificação. Contudo, este processo não teria continuidade.
Em 1987, a Sociedade Comercial de Tecidos Romeu Carvalho, Lda. surgia já identificada como proprietária do imóvel no Processo de Obras da CML.
Mais tarde, em 15 de dezembro de 2004, o Presidente do IPPAR revogou o despacho de abertura do processo de classificação.
Testemunhos de antigos frequentadores revelam uma sala profundamente marcada pela diversidade social. Ali entrava gente de diferentes origens: desde espectadores de condição mais modesta até pessoas que também frequentavam salas como o Odeon, o Condes, o Eden ou o São Jorge. O essencial era ver o filme. E, no Salão Lisboa, viam-se muitos: as célebres sessões duplas, contínuas, a partir da tarde, faziam parte da rotina de quem encontrava no cinema uma forma acessível de lazer, aprendizagem e evasão.
Algumas memórias são particularmente vivas: o bilhete a 2 ou 2,50 escudos, os copos de água vendidos no intervalo a dois tostões, a assistência de bar, a galeria lateral com bilhetes mais baratos e o hábito curioso de marcar o lugar com um lenço durante os intervalos. A própria máquina de projeção ficou gravada na memória de quem por lá passou: funcionava a carvão, ouvia-se o seu trabalhar e, do exterior, via-se por vezes o fumo a sair da chaminé.
Mas o Salão Lisboa também tinha uma reputação popular menos elegante. Era conhecido por alguns como o “cinema piolho”, alcunha associada às condições modestas da sala e à clientela heterogénea que a frequentava. Ainda assim, ou talvez precisamente por isso, fazia parte de uma Lisboa real, intensa e sem filtros, onde o cinema se misturava com a rua, as tabernas, as cervejarias, as conversas de intervalo e a vida quotidiana da Mouraria.
Os relatos recordam também o ambiente ruidoso e participativo das sessões. Quando havia problemas na projeção ou no som, o público reagia de imediato, gritando frases como: “Ó marreco, olha o sonoro!”. Estas expressões revelam uma forma de assistir ao cinema muito diferente da atual: mais coletiva, mais espontânea, mais próxima do teatro popular e da vida de bairro.
Há ainda memórias que situam este antigo cinema em momentos históricos marcantes, como o período pós-25 de Abril. Um testemunho recorda uma sessão em 1974 em que a luz falhou a meio do filme, gerando confusão e correria na Rua da Mouraria e nas Escadinhas da Saúde, ao som de comentários exaltados próprios daquele tempo revolucionário.
Quanto à data de encerramento, os testemunhos orais revelam alguma divergência. Embora a documentação indique o fim da exploração cinematográfica em 1972, há memórias de antigos frequentadores que afirmam ter assistido a sessões depois dessa data, apontando para 1977 ou até para um encerramento posterior em 1980. Esta diferença entre arquivo e memória mostra como a história dos antigos cinemas nem sempre se encontra apenas nos documentos oficiais: vive também nas recordações, nas dúvidas e nas experiências de quem os frequentou.





O Salão Portugal foi outro "Cinema Piolho", que foi construído de acordo com o desejo do comerciante José Nicolau Veríssimo, situando-se na Travessa da Memória, 26 no Bairro da Ajuda, com a intenção de não só realizar espectáculos cinematográficos, como também apresentar números de variedades, tendo o projecto incluindo a construção de um palco.
As portas deste cinema abriram ao público em 1928 e a sua exploração estaria a cargo do seu dono até 1935, quando a "Sociedade Geral de Cinemas, Lda." tomou conta do espaço. Desta empresa fazia parte Jaime da Cunha Rosa, ligado ao negócio cinematográfico no Olímpia Salão Lisboa e Paris Cinema, do qual se tornaria proprietário.
Em 1936, a sala sofreu uma profunda remodelação, sem perder o estilo exterior na década de 1920. A sala era constituída por uma 1ª plateia com 340 lugares; 2ª plateia com 80 lugares; balcão que acomodava 136 espectadores e 12 camarotes, perfazendo um total de 510 lugares. Em 1945, a exploração deste salão volta para o seu proprietário, que preside até ao ano seguinte, onde começa a ser explorado por D.ª Amália Madueño Diaz.
Gozou de grande popularidade até à decada de 1950, mas não conseguiu fugir ao rótulo de "cinema piolho", apesar da sua fachada trabalhada, dos candelabros e do balcão para a nobreza residente no bairro. No inicio desta década entrou em decadência e fechou portas em 1977. Acabou por se transformar numa ruína, até que com a entrada no novo milénio o edifício foi restaurado, mantendo a sua fachada original e actualmente é a sede do Comité Olímpico de Portugal desde 2012. Actualmente, encontra-se incluído na zona especial de protecção da Igreja da Memória.
O ambiente e a atmosfera do histórico Salão Portugal foram retratados por Vítor Serpa no livro Salão Portugal – Novos Contos da Velha Lisboa. A descrição do autor transporta-nos para uma época em que o cinema era também um espaço de encontro social, refletindo as diferentes classes e hábitos da sociedade lisboeta.
Segundo Serpa, o Salão Portugal apresentava-se como um retrato em miniatura do país: uma sala modesta, mas elegante, marcada por mármores, veludos e elementos decorativos que evocavam um passado grandioso. A plateia, localizada no piso inferior, reunia um público mais popular, enquanto o balcão acolhia a classe média, rodeada por paredes decoradas com imagens de estrelas de Hollywood como Greta Garbo, Lauren Bacall, Humphrey Bogart, Gary Cooper ou John Wayne. Nos camarotes, mais reservados e exclusivos, encontrava-se a elite social, num espaço familiar e protegido. Esta divisão física da sala espelhava as diferenças sociais da época, transformando o cinema num microcosmo da cidade. Mais do que um local de exibição de filmes, o Salão Portugal era um palco onde se refletiam os costumes, as aspirações e as dinâmicas sociais da Lisboa de então.
O que caracteriza estes dois salões era o facto de serem considerados "piolhos", que proliferaram em Lisboa. Estes "piolhos" tinham sempre dois filmes em exibição ou sessões contínuas e eram destinadas a um público jovem, principalmente adolescentes trabalhadores. Outro factor que caracterizava este cinemas era serem pouco higiénicos, por isso denominavam-se de "piolhos".
Fontes:
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do
século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
FERNANDES, J.M, Cinemas de Portugal, Edições Inapa, 1995
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939,
Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=4036
http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=10552
https://restosdecoleccao.blogspot.com/2014/12/salao-lisboa.html
http://diasquevoam.blogspot.com/2007/01/os-piolhos.html
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=726
http://cinemaaoscopos.blogspot.com/2009/12/salao-portugal-1928-1977.html
http://citizengrave.blogspot.com/2011/10/cinemas-onde-vi-filmes-salao-lisboa.html
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1 comments:
O Cinema Salão Lisboa só encerrou para a actividade cinematográfica em 1975.
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