Avis: Memória de Outros Tempos




Resolvi trazer à baila mais uma memória perdida (ou não!) de uma sala de cinema que, infelizmente, já se esfumou da cidade de Lisboa.

AVIS situava-se na Avenida Duque D'Ávila, sendo que, actualmente, não existe qualquer vestígio de que um dia existiu ali um simpático cinema, que até atraia público muito provavelmente por culpa da fábrica de gelados que ficava por trás.
A origem desta sala remonta à compra do terreno na Avª .Duque d'Ávila, 45 a 45-A feita por Augusto de Ornelas Bruges, frente à antiga estação dos eléctricos do Arco do Cego e, aí, construiu-se o cinema a que deu o nome de Trianon, inaugurado em 1 de Janeiro de 1930. Gozava de exclusividade, pois não havia outra sala nas imediações das "Avenidas Novas".



Era um espaço constituído por 500 lugares, sem grande luxo mas confortável. A disposição da sala limitava-se a uma plateia, dividida em duas categorias de lugares, para além de uma série de frisas dispostas ao fundo da sala e dois balcões laterais, praticamente ao nível do pavimento e não colocados, como é hábito, num plano superior.
Na decoração da sala destacava-se a cor azul, pontuada pelo dourado e a arrumação da sala ficava a cargo de mulheres. Existia também uma orquestra composta por nove elementos e conduzida pelo maestro Carlos Sá, que comentava musicalmente os filmes mudos, actuando também nos intervalos.



A dois anos depois da inauguração, os proprietários deste espaço resolveram fazer alterações importantes no seu interior, nomeadamente a construção de um largo balcão, disposto frontal e lateralmente, como na substituição dos primitivos balcões situados ao nível do pavimento da plateia, por dois grupos de frisas, de um e de outro lado dessa plateia, ao mesmo tempo que toda a decoração foi alterada, tal como a disposição da iluminação da sala e o próprio tecto. A nova decoração da sala assemelhava-se à do Cinema Tivoli, muito por culpa da intervenção feita pelo Arqt.º Raul Lino (autor do projecto do Tivoli) que introduziu uma coerência interna e uma correspondência certa entre os seus elementos decorativos, visíveis nos modernos lustres que pendiam do tecto e na utilização de luz indirecta. A designação também seria alterada para o mais lusitano Cinema Palácio, sendo explorado por Vicente Alcântara, o mesmo empresário do Odéon.




No entanto, esta nova inauguração sofreu alguns percalços, ficando "presa" durante 17 dias. Considerava-se como a "sala mais bonita e mais aquecida de Lisboa", passando a assumir uma programação clássica de reprise.













Em 1956 este cinema, sob a gerência da Soprocine - Sociedade Proprietária de Cinemas, Lda,  sofre uma remodelação profunda na estrutura da sala com a substituição das cadeiras do balcão e da plateia, como também o desaparecimento das frisas laterais substituídas por lugares de plateia, ao mesmo tempo que eram introduzidas modificações em todo o espaço, da autoria do Arq.º Maurício de Vasconcelos, tendo como construtor Antero Ferreira. Neste projecto, a plateia ganhou expressão e dimensão devido à anulação das frisas e do balcão lateral, articulando-se a sala aos novos estados de espírito do pós-guerra e ao novo sentidos que estes edifícios adoptava. Ao mesmo tempo, o seu exterior dispensava a clássica fachada, tentando coabitar com outros comércios e atraindo espectadores. 
Assim, em 29 de Novembro desse ano, este renovado espaço reabriu ao público, mas desta vez com o novo nome de AVIS. O filme inaugural foi a comédia musical "Fogo de Artificio", interpretada por Romy Schneider, que conquistou em absoluto o agrado de todos os espectadores.











 Após ter exibido filmes de estreia e enormes sucessos de bilheteira, como "Trinitá - O cowboy insolente", que estreou em Maio de 1972 e esteve em exibição até Março de 1973, e secundado pelos primeiros melodramas indianos chegados a Portugal após 1974. Também transmitiu filmes pornográficos, fechando definitivamente em 1988. O seu edifício foi demolido e deu lugar a outros habitacionais.



Actualmente, nada resta de um cinema que num passado não muito remoto teve o nome de AVIS.


Fontes: 
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2014/06/cinema-avis.html
http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2015/03/cinema-palacio.html
Blogue "Dias que Voam"
http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(5hlkodrbth0ra3aanemcfl45))/SearchResultOnline.aspx?search=_OB%3a%2b_QT%3aTI__Q%3aCINEMA+AVIS_EQ%3aF_D%3aF___&type=PCD&mode=0&page=0&res=0&set=%3bAF%3b

 
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