Continuando pela cidade de Lisboa, chega-se à Avenida Praia da Vitória, nº 37, junto à Praça do Saldanha, onde ainda se encontra (pelo menos a marquise) o Cine Estudio 222.
A sua história inicia-se com a instalação de um centro comercial e sala de cinema no rés do chão e cave do nº 37 da Avenida da Praia da Vitória, entre os anos de 1976 e 1977, graças a Firozali Sacoor e Heider Alli Sacoor, moçambicanos de origem indiana, que vieram para Lisboa depois do 25 de Abril. Algumas fontes afirmam que este cinema foi inaugurado em 1978.
É incerto o motivo deste nome. A opinião popular afirma que adviria do facto de a sala de cinema ter 222 lugares, mas o projecto que consta na CML apresenta 214 lugares. É, no entanto, possível que a designação tenha esteja relacionada com um outro cinema, nascido na Baixa de Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique, com o mesmo nome, que abriu no final da década de 1960 e, de facto, teria esse nome por causa dos 222 lugares na plateia.
Este espaço abriu as suas portas, inserido numa pequena galeria comercial com poucas lojas e em forma de corredor, que dava acesso às escadas que conduziam ao cinema. Mais um exemplo de uma sala de cinema que ficava numa cave de um prédio habitacional, tão em voga na década de 1970.
Tinha uma particularidade urbana: o painel que se sobressaía da fachada e que divulgava em letras garrafais o seu nome.
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Interior da sala (cortesia de David Ferreira no grupo de Facebook "Cinemas do Paraíso") |
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Interior da sala (cortesia de David Ferreira no grupo de Facebook "Cinemas do Paraíso") |
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Interior da sala (cortesia de David Ferreira no grupo de Facebook "Cinemas do Paraíso")![]() |
Era um espaço de pouca relevância comercial, apesar da sua localização bastante central, devido ao facto de estar muito associado à exibição de filmes de Bollywood durante muitos anos, muito direccionado para um determinado nicho de público.
Quando este espaço surgiu no final da década de 1970, funcionou como um cinema normal, e até teve sucessos de exibição, como o filme "Kramer Contra Kramer", que esteve em cartaz neste cinema durante 27 semanas. Contudo, com o aparecimento dos multiplexes, a gerência foi obrigada a criar uma filosofia diferente, porque não dava para competir com as grandes salas. Importava criar uma verdadeira alternativa, de modo a cativar os espectadores.
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Programa do filme "Kramer contra Kramer" de 1980 (colecção de Carlos Caria) |
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Programa do filme "Kramer contra Kramer" de 1980 (cortesia de Ana do Vale) |
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Interior de programa do filme "Kramer contra Kramer" de 1980 (colecção de Ana do Vale) |
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Bilhete de 13.10.1979 - filme "Em Nome do Papa Rei" (colecção de Carlos Caria) |
É de salientar que, à 4ª Feira, eram exibidas curtas metragens.
Com uma comunicação eficaz, que incluía uma apresentação presencial antes do filme se iniciar, e com ciclos temáticos muito originais (que voltaram a exibir filmes que já não era, vistos há muitos anos ou que eram inéditos), esta associação transformou este cinema num local de culto, que captava a atenção de cinéfilos de todas as idades, especialmente os universitários que alargavam o seu conhecimento sobre a história do Cinema. No entanto, a partir de 2003, já era vísivel a degradação desta sala e a vontade desta entidade em procurar outras parcerias e seguir com outros projectos, acabando por sair deste cinema.
A gerência era responsável pela programação ao fim-de-semana, constituída por filmes indianos, na sua versão original e que vinham directamente de Londres. Alguns já tinham legendagem em inglês. Este cinema tentou agregar no mesmo espaço as 3 comunidades indianas que residiam em Lisboa (hindu, muçulmana e ismaelita) e, desde o final da década de 1990 e o início da década de 2000, que funcionou como ponto de encontro e de divugação da cultura indiana. Assim, a gerência poderia comprar os filmes, fazer a sua legendagem e projectá-los para uma sala pública.
Este cinema funcionou, até 2005, quando fechou portas para serem feitas obras na cobertura do telhado, processo que ficou parado (pelo menos até 2012) à espera da decisão do tribunal sobre o apuramento de responsabilidades. Sem estas obras, a C.M.Lisboa não emitiria a licença de utilização do espaço.
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Interior do Cine Estúdio 222 (Remax, s/d) |
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Cine Estudio 222 (imagem: Paulo Frutuoso, 2025) |
- SILVA, Ricardo Oliveira (2012) "O Cinema e a Televisão Sob o Signo da Identidade: Bollywood e as Fronteiras da
Modernidade Indiana, na Cidade de Lisboa". Departamento de Antropologia do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
- https://museudoscinemas.wordpress.com/2021/04/05/cine-estudio-222-1978-2003/
- https://museudoscinemas.wordpress.com/2025/04/16/o-kramer-contra-kramer-foi-visto-no-cine-estudio-222-colecao-ana-do-vale/?fbclid=IwY2xjawJuXt9leHRuA2FlbQIxMQABHh73r7R32Ja0S3qJApZP8b40zexxXiUHAMj3xkSuf2GnCXXgNeUuZkKiMbEm_aem_unS_LaooFz95dsCWLN_a2Q
- https://amensagem.pt/2024/11/15/monumental-cinema-222-cinema-saldanha/
- https://www.facebook.com/groups/sala9?locale=pt_PT
- https://www.ruadebaixo.com/cine-estudio-222.html
- https://jornalismoaudiovisual.wordpress.com/2013/02/12/os-cinemas-que-lisboa-nao-ve/estudio-222/
- http://industrias-culturais.blogspot.com/2006/12/os-pequenos-centros-comerciais.html
- https://www.remax.pt/pt/imoveis/venda-loja-tlisboa-arroios/121491209-943
- https://www.olx.pt/d/anuncio/folheto-cine-club-juvenil-222-IDHUWZ2.html
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