Se a sua viagem por Lisboa começar no Rossio, há um lugar que merece ser redescoberto — o Animatógrafo do Rossio.
Um nome que soa antigo e mágico, e não é por acaso: este espaço foi um dos primeiros templos do cinema em Portugal, inaugurado a 8 de dezembro de 1907 pelos irmãos Ernesto e Joaquim Cardoso Correia. Inspirado na Arte Nova curvilínea, de influência franco-belga, o edifício tornou-se num ícone. Ainda hoje, resiste na Rua dos Sapateiros, n.º 225-229, junto ao Arco da Bandeira — por isso, muitos ainda o conhecem como Arco Bandeira.
Em 1903, o proprietário do armazém situado no rés-do-chão do edifício n.º 229 solicitou à Câmara Municipal autorização para dividir o saguão com um muro e criar uma porta de comunicação entre as diferentes áreas do imóvel.
Quatro anos mais tarde, em 1907, apresentou um novo pedido para demolir essa divisão, depois de ter arrendado o espaço à firma Correia & Correia, que ali pretendia instalar uma sala de cinema. O projeto concretizou-se a 8 de dezembro de 1907, data em que abriu portas este animatógrafo, inaugurado com a exibição da longa-metragem A Aventureira. Considerado então um dos salões cinematográficos mais luxuosos da capital, a sua instalação representou um investimento de cerca de dez contos.
Integrado num edifício pombalino de habitação e comércio, este animatógrafo destacou-se pela sua extraordinária fachada Arte Nova, inspirada na Escola Franco-Belga de Victor Horta e Hector Guimard. A decoração combinava madeira entalhada, formas ondulantes e dois painéis de azulejos figurativos policromos de inspiração simbolista, criando uma imagem elegante e inovadora. Estes painéis encontram-se integrados de forma simétrica na fachada, separando os vãos, emoldurados por uma rica decoração vegetalista em talha de cor verde, volumosa e sinuosa, semelhante aos caules das plantas. Foram pintados por M. Queriol, recorrendo à técnica da faiança, e que representam duas figuras femininas de longos cabelos, a segurar candeeiros, simbolizando a iluminação do mundo e evidenciando um dinamismo de formas ondulantes e linhas sinuosasm em policromia de tons suaves e esbatidos.
Trata-se de um exemplo singular da Arte Nova portuguesa e de um raro caso internacional de aplicação desta linguagem artística à decoração de um cinema. A sua fachada contribuiu também para enriquecer a paisagem da Baixa Pombalina, integrando o movimento de renovação estética que, ao longo do século XX, suavizou a austeridade da arquitetura original.

A atividade do espaço foi sofrendo diversas transformações. Em 1908, os proprietários apostaram nos espetáculos de variedades, construindo um palco e contratando artistas, entre as quais várias cançonetistas espanholas. No ano seguinte, em 1909, o cinema deu lugar ao Teatro Infantil de Lisboa, onde subiram à cena inúmeras peças interpretadas por crianças e que contou, entre outros, com a colaboração de André Brun. Com a dissolução da companhia exploradora, em 1915, o espaço regressou à sua função cinematográfica. Décadas depois, em 1929, a morte de José Cardoso Correia, a 9 de abril, levou à transferência da gestão para o seu irmão Ernesto Cardoso Correia, para Eduardo Teixeira e para o antigo colaborador Júlio Barros.
Segundo Acciaiuoli (2012), a adaptação deste antigo armazém para sala de cinema representou uma mudança significativa e duradoura na utilização deste espaço. Beneficiando de uma decoração exterior distintiva, que o identificava imediatamente como local de espetáculo e o destacava na paisagem urbana, o edifício rompeu com a sua função original e consolidou uma nova vocação ligada ao emergente universo do cinematógrafo.
Este cinema dispunha de uma sala modesta, ainda longe do conforto que viria a caracterizar as grandes salas das décadas seguintes. Com capacidade para cerca de 226 espectadores sentados, acolhia ainda numerosos curiosos que acompanhavam as projeções de pé, no promenoir. Apesar da simplicidade das instalações, o espaço tornou-se um importante ponto de encontro para os lisboetas, testemunhando os primeiros passos da paixão nacional pela sétima arte.
Ao centro, encontra-se a bilheteira, sendo que a entrada efectua-se
pela porta da direita e a saída pela porta da esquerda. Assim que se
entra neste cinema, vê-se cortinados na parte interior das portas, existindo
uma passagem directa para o auditório.
De acordo com o SIPA (2001/2004), este edificio encontra-se incluído na classificação da Lisboa Pombalina.




Já no final do século XX, o edifício voltou a ganhar destaque. Em 1984, a Associação Portuguesa de Realizadores de Filmes propôs instalar ali a sua sede, embora o projeto nunca se tenha concretizado. Em 1994, a sala reabriu com uma programação de espetáculos para adultos e, nesse mesmo ano, foi assinado um protocolo entre a Empresa Olimpo e a Escola Superior de Artes Decorativas com vista à recuperação da histórica fachada. Apesar das intenções, a intervenção acabaria por não se realizar.

Mas a história tomou um rumo menos feliz. Desde a década de 1990, o espaço funciona como peep-show e sex-shop, uma realidade que contrasta brutalmente com a sua importância histórica. Poucos que passam pela rua imaginam que por trás daquela porta se esconde um pedaço da memória cultural de Lisboa, que brilhou em tempos como um farol de modernidade e beleza artística.

O Animatógrafo do Rossio foi, no seu tempo, um símbolo da ligação entre Lisboa e a sétima arte. Hoje, sobrevive como uma relíquia esquecida, mas o seu valor patrimonial e arquitectónico merece ser celebrado e protegido.
Ao visitar o Rossio, olhe para além da azáfama da praça. Entre ruas e arcos, ainda repousa um espaço que conta mais de um século de história do cinema português. Talvez esteja na altura de devolver ao Animatógrafo do Rossio a dignidade que lhe pertence.
Fontes:
- ACCIAIUOLI, Margarida, Os Cinemas de Lisboa – Um fenómeno urbano do século XX, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2012
- RIBEIRO, M. Félix, Os mais antigos cinemas de Lisboa, 1896-1939, Lisboa, Instituto Português de Cinema/Cinemateca Nacional, 1978
- http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=10115
- https://informacoeseservicos.lisboa.pt/contactos/diretorio-da-cidade/paineis-de-azulejos-do-antigo-animatografo-do-rossio
- https://www.fotold.com/fotos/lugares/1984-animatografo-do-rossio-em-lisboa--102616
- http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/Imagem.aspx?ID=2180198&Mode=M&Linha=1&Coluna=1
- http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/Imagem.aspx?ID=2215430&Mode=M&Linha=1&Coluna=1
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-http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(bjurjce1cf22t0auv1l4wg45))/ContentPage.aspx?ID=9521e37d83430001e240&Pos=1&Tipo=PCD
-http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(wjsvl1550ffbtwb4siks0i45))/ContentPage.aspx?ID=9527e67f84480001e240&Pos=1&Tipo=PCD
-http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(j0o2xn45p3hbb2n1hmtgui55))/ContentPage.aspx?ID=9527e67f84490001e240&Pos=1&Tipo=PCD
-http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(xcvui155qab43455enz04h45))/ContentPage.aspx?ID=9527e67f844e0001e240&Pos=1&Tipo=PCD
-http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/x-arqweb/(S(aeuigymfdwebdv55ytb5fhvb))/ContentPage.aspx?ID=952ae27c8d4f0001e240&Pos=1&Tipo=PCD
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